segunda-feira, março 25, 2013

V... de Virus!




Nas últimas duas semanas as autoridades chineses têm andado a retirar porcos mortos do rio Huangpu, rio que que fornece a água para consumo doméstico para 20% das 23 milhões de almas de Xangai. Até à data desconhce-se a origem ou o que provocou a morte dos suínos. Agora, as autoridades enfrentam um novo caso mas com patos. Pelo menos mil aves surgiram mortas no rio Nanhe, na região de Pengshan, província de Sichuan, sudoeste da China. Os patos foram descobertos na última quinta-feira, mas só este domingo as autoridades de Pengshan confirmaram o caso. E, mais uma vez, não foi ainda possível determinar a causa da morte dos patos tendo em conta que a maioria dos corpos estava em avançado estado de decomposição. E estes são apenas alguns exemplos dos problemas que o gigantesco território da China oferece ao mundo em termos de saúde.

Graças a um enorme território e imensa população, a China é, juntamente com a Índia, uma das maiores ameaças à saúde pública do mundo. Que como sabemos tem um longo historial de pandemias com resultados calamitosos para a humanidade.

A mais grave de todas, registada entre 430 AC e 1979 foi a varíola. Só no século XX a varíola matou quase 500 milhões de pessoas. Julga-se que terá surgido na Índia e foi uma das principais responsáveis pela destruição das populações nativas da América após a sua importação da Europa com Colombo. Juntamente com o Sarampo, Varicela e outras doenças, ela matou mais de 90% (25% da mundial) da população do continente americano, derrotando e destruindo as civilizações Asteca e Inca. O último caso registrado da doença ocorreu na Somália em 1977.

Foi considerada erradicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1980, no entanto, a doença voltou às manchetes de jornal, em virtude da suposição de que ela pudesse ser utilizada como arma biológica. 

A gripe espanhola (1918-1919), ocupa igualmente um lugar de destaque. Matou aproximadamente 50 milhões de pessoas em menos de 2 anos. Sozinho, este vírus matou mais pessoas do que os Nazis, armas nucleares e todos os terroristas da história juntos. Ninguém sabe como começou, nem a sua origem, tendo ganho o seu nome pelo facto da imprensa espanhola ter reportado que muitos civis estavam adoecendo e morrendo em números alarmantes. A pandemia caracterizou-se mundialmente pela elevada mortalidade, especialmente entre os mais jovens e pela frequência das complicações associadas. Calcula-se que afetou 50% da população mundial, pelo que foi qualificada como o mais grave conflito epidêmico de todos os tempos. A falta de estatísticas confiáveis, principalmente no Oriente (como China e Índia) pode ocultar um número ainda maior de vítimas.

Uma das mais famosas foi a peste negra. E bem merecida a fama. Matou 75 milhões de pessoas. Era assim que era conhecida, durante a Idade Média, a peste bubônica, uma pandemia que assolou a Europa, a China, o Oriente Médio e outras regiões do Mundo durante o século XIV (1347-1350) dizimando um terço da população da Europa. A doença é causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida ao ser humano através das pulgas dos ratos-pretos ou outros roedores.

Conta-se que a origem desta peste surgiu com o uso da doença como arma biológica. Cadáveres de turcos que tinham morrido da doença foram catapultados para dentro das muralhas de Jaffa, para onde se terá propagado. Mais tarde, durante a primeira guerra mundial, o exército Japonês também utilizou a peste como arma biológica disseminada por pulgas em civis chineses e prisioneiros de guerra na Manchúria.

O tifo também tem o seu lugar de destaque. Entre 1918 e 1922 matou cerca de 3 milhões de pessoas. Trata-se de uma doença epidémica transmitida por parasitas comuns ao corpo humano, os piolhos, embora não deva ser confundida com a febre tifóide que é causada pela salmonella.

A primeira descrição reconhecível do tifo foi dada em 1083 na Itália, mas só em 1546 é que o famoso médico de Florença, Girolamo Fracastoro (o primeiro médico a defender os germes como causa das doenças), descreveu a doença em termos científicos. Já em 1909, Charles Nicolle identificou o piolho como vector da doença. Ganhou em 1928 o Prémio Nobel pela sua descoberta.

O tifo atingia particularmente os exércitos em campanha e as populações prisionais. Uma das epidemias mais conhecidas foi aquela que atingiu Napoleão Bonaparte e a sua "Grande Armée" na campanha de invasão da Rússia, em 1812. Durante a retirada das suas tropas após a destruição de Moscovo, as tropas de Napoleão foram reduzidas de 600.000 a 40.000 homens por causa do frio e do tifo. O corte de cabelo à "máquina zero" e a proibição da barba no exército tem aí a sua explicação: são medidas higiênicas, hoje parte importante da disciplina de todos os exércitos do mundo excluindo-se os de países de religião muçulmana onde permanece o afluxo da doença.

E muitas outras há, algumas mais antigas, outras mais modernas, mas todas ainda bem activas. A malária, por exemplo, mata aproximadamente 2 milhões de pessoas por ano, apesar de já andar por aí há cinco séculos e de todos os avanços tecnológicos. A malária ou paludismo, é uma doença infecciosa aguda ou crónica causada por protozoários parasitas, transmitidos pela picada do mosquito Anopheles. Mais novinha, a SIDA (tecnicamente o Síndrome da imunodeficiência adquirida) causada pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV). Já matou 25 milhões de pessoas desde o primeiro caso reconhecido em 1981. As primeiras infecções ocorreram na África na década de 1930 e julga-se que teria sido inicialmente contraído por caçadores africanos de símios que provavelmente se feriram e ao carregar o animal, sujaram a ferida com o sangue infectado deste. Calcula-se que mais de 15 000 pessoas sejam infectadas por dia em todo o mundo, que 45 milhões estão atualmente infectadas e 3 milhões morrem a cada ano. Sem esquecer a nossa já muito conhecida epidemia causada pelo nosso novo vizinho, o mosquito Aedes aegypti. Actualmente, a dengue é a arbovirose mais comum que atinge o homem, sendo responsável por cerca de 100 milhões de casos/ano numa população de risco de 2,5 a 3 biliões de seres humanos. A febre hemorrágica da dengue e o síndrome de choque da dengue atingem pelo menos 500 mil pessoas/ano, apresentando taxa de mortalidade de até 10% para pacientes hospitalizados e 30% para pacientes não tratados. E mais há por esse mundo fora, muitos possivelmente ainda por descobrir a sua origem.

Voltando à China, todos estes atentados ambientais têm custos. Custos que todos nós, mais tarde ou mais cedo, pagamos. A título de curiosidade, não é à toa que o paciente zero no romance de Max Brooks "World War Z" (onde a população humana é dizimada pelo resultado de um vírus mortal que literalmente acorda os mortos), é um miúdo... chinês!

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