sábado, janeiro 26, 2013

Chegaram os dias de chuva!

(in DN-Madeira, 26/01/2013)

Vem hoje no Diário de Notícias uma entrevista muito interessante com Sidónio Fernandes, o presidente do Instituto de Emprega da Madeira. Apesar das palavras de alguma esperança no seu discurso, é indisfarçável que o bonança está ainda longe no mercado laboral madeirense.

Em discurso directo:
"O investimento público na Região diminuiu e, por tabela, o investimento privado também diminuiu. No lado do sector público, a fase das grandes obras e infra-estruturas passou. Houve muitos cortes nos apoios da UE, as transferências do Governo da República para a Região diminuíram e as últimas leis das finanças regionais cortaram muitos dos apoios que a Região estava habituada a ter."
"De alguma forma tem sido o Governo Regional, através da Vice-presidência que tutela a economia, a conceder crédito às empresas - só no ano passado foram injectados 28 milhões."
"Temos a noção que a situação do desemprego é muito complicada, temos 23.700 desempregados. Uma parte considerável é desemprego de curta duração (há menos de 1 ano) mas o desemprego de longa duração tem vindo a crescer. As pessoas que procuram um primeiro emprego são uma percentagem relativamente baixa (cerca de 10%) e são jovens que acabaram os estudos, domésticas ou pessoas que nunca trabalharam e que agora sentem necessidade disso. A nossa preocupação é sobretudo que o tipo de desemprego que temos é maioritariamente de pessoas que têm baixas qualificações."
"Cerca de 55% dos nossos desempregados são pessoas que têm um nível de qualificação até ao ciclo preparatório (6.º ano de escolaridade). A integração destas pessoas no mercado de trabalho é extremamente difícil, porque hoje um empresário dá preferência a quem tenha um pouco mais de qualificações."
[a estrutura do Instituto de Emprego consegue responder aos problemas?] "Tem respondido, mas com grande sacrifício dos funcionários, que são os mesmos que tínhamos quando havia 5 ou 6 mil desempregados. Temos quatro vezes mais [desempregados] e as pessoas são as mesmas. As pessoas que fazem atendimento encaram situações dramáticas, de famílias em que marido e mulher estão desempregados e têm filhos a estudar e que têm de tirá-los da universidade porque não conseguem pagar os seus compromissos."
"(...) nós não criamos postos de trabalho, quem os cria são as empresas."

Há várias conclusões que se pode tirar daqui. A primeira, e imediata, são os quase 24 mil desempregados, numa população activa de 150 a 190 mil pessoas. Desses 24 mil, pelo menos 14 mil são pessoas com baixo grau de escolaridade, normalmente ligados aos ramos da construção civil, que foi, o grande responsável pelo "boom" da Madeira nos últimos 30 anos. O que também significa que foram pessoas que saíram das escolas muito cedo, pelo que não receberam qualquer outra "ferramenta" laboral que a capacidade do seu corpo.

Concluimos também que o grande empregador regional é mesmo o Governo Regional a sua estrutura, que directa ou indirectamente influencia todo o tecido laboral regional. E porque não se criou ou incentivou a iniciativa privada que não estivesse, de uma forma ou de outra, ligada ao poder central. Quebrou este, quebram os restantes.

Estes números que, naturalmente, não são unicamente responsabilidade da Região, demonstram claramente que não nos preparamos para os "tempos de chuva". Pois eles chegaram.

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