quarta-feira, setembro 21, 2005

Morreu o caça-nazis

Simon Wiesenthal: Morreu a consciência do Holocausto

Viveu com a convicção de ter sido escolhido para uma missão: a de não deixar esquecer o horror e a de não deixar os culpados impunes. Só assim conseguiu entender (e suportar) a sua sobrevivência à Shoah, quando tantos outros milhões não foram poupados. O "caçador de nazis" morreu a dormir.

Em 1964, o "New York Times" publicou uma história que explica bem os motivos que levaram o arquitecto Simon Wiesenthal a dedicar a sua vida pós-Holocausto a caçar nazis. Durante um jantar em casa de um outro sobrevivente dos campos de extermínio entretanto transformado num bem sucedido joalheiro, o anfitrião perguntou-lhe: "Simon, se tivesses voltado a construir casas, hoje serias um milionário. Por que não o fizeste?" "Tu és um homem religioso", respondeu-lhe Wiesenthal, "Acreditas em Deus e na vida depois da morte. Eu também acredito. Quando chegarmos ao outro mundo e encontrarmos os milhões de judeus que morreram nos campos e eles nos perguntarem "O que é que fizeste?", as respostas serão variadas. Tu vais dizer "Tornei-me um joalheiro", outro vai dizer "Contrabandeei café e cigarros americanos", outro dirá "Construí casas". A minha resposta será: "Eu não me esqueci de vós."

Ontem de manhã terá ocorrido esse encontro tão esperado, em que Simon Wiesenthal foi prestar contas junto dos milhões que foram vítimas da "solução final", dizer-lhes que fez o que pôde para não deixar impune o maior acto de genocídio da história da humanidade. Explicar-lhes, como costumava dizer desde 2003, ano em que se reformou após a morte da mulher, Cyla, que o seu trabalho "estava terminado", que já não havia mais nazis para julgar, que ele lhes tinha "sobrevivido a todos". Wiesenthal morreu durante o sono na sua casa de Viena. Tinha 96 anos.Wiesenthal esteve sempre convencido de que só uma série de milagres o manteve vivo durante o Holocausto e lhe permitiu abraçar de novo a sua mulher, Cyla, quando ambos já tinham dolorosamente assumido que o outro não sobrevivera à guerra. A convicção de que tinha sido poupado e abençoado pela sorte divina foi a força motriz que conduziu o resto da sua vida. Uma vida com uma única missão: "justiça e não vingança".

Simon Wiesenthal nasceu a 31 de Dezembro de 1908, filho de um casal de judeus modestos, em Buczacz, perto de Lvov (actualmente Ucrânia, na altura Império Austro-Hungaro). O seu pai morreu durante a Primeira Guerra. Ele estudou Arquitectura em Praga e, deregresso a Lvov, casou-se com Cyla Muller.

O pacto de "não-agressão" entre Moscovo e Berlim de 1939 foi sentido em Lvov. A purga dos judeus foi feita primeiro pelos soviéticos e depois, a partir de 1941, pelos alemães. Desempregado pelos primeiros, evitou a deportação para a Sibéria subornando um polícia. Quando os segundos chegaram, conseguiu escapar às primeiras execuções, mas não evitou a prisão. O casal Wiesenthal ficou no mesmo campo de trabalho em Lvov até ao Outono de 1942, altura em Simon negociou documentos falsos para a sua mulher, que fugiu da prisão e sobreviveu ao resto da guerra como cidadã polaca. Nesse mesmo ano, um total de 89 membros das famílias de Simon e Cyla, incluindo a viúva Wiesenthal, morreram. Em Outubro do ano seguinte conseguiu fugir, mas seria recapturado pelas SS em 1944. Seguem-se três tentativas de suicídio para "escapar ao horror" e uma tournée macabra por 11 campos de concentração antes de chegar ao campo de Mauthausen. Em Maio de 1945, as tropas americanas iriam encontrá-lo, um monte de ossos estendido no chão.

Acaba a guerra, começa a missão

A caça aos nazis começará nesse mesmo ano. Simon Wiesenthal recolheu e preparou provas sobre as atrocidades nazis para a Secção de Crimes de Guerra do Exército americano. Deu-se o milagroso reencontro com Cyla e o casal teve a sua única filha, Paulinka. Até 1947, Simon colaborou com os americanos, mas depois criou o Centro Judaico de Documentação, com o objectivo de recolher provas e testemunhos para futuros julgamentos de criminosos de guerra nazis. A guerra fria (russos e americanos deixaram de estar empenhados na perseguição aos nazis) forçou o encerramento deste centro em 1945, e Wiesenthal enviou todo o material que recolheu para o Arquivo Yad Vashem em Israel. Todos, excepto um: o de Adolf Eichmann, chefe do departamento judaico da Gestapo que supervisionou a aplicação da "solução final".

Foi Wiesenthal o primeiro a descobrir a pista argentina que levaria a Mossad (agência de espionagem israelita) a capturar Eichmann em Buenos Aires, em 1960, para depois o Estado judaico o julgar e condenar à morte. Telavive assumiu o papel de Wiesenthal nesta captura e o reconhecimento público mundial do seu trabalho permitiu-lhe abrir novo centro de documentação, desta vez em Viena. Seguiram-se mais capturas e julgamentos importantes, entre eles a do comandante do campo de concentração de Treblinka, Franz Stangl, e de Karl Silberbauer, o oficial da Gestapo que prendeu Anne Frank. Recusou-se a perseguir nazis sem sangue nas mãos, como foi o caso do ex-Presidente austríaco e antigo secretário-geral da ONU Kurt Waldheim, por considerar que "seria grotesco colar uma etiqueta de criminoso de guerra a todos os 10 milhões de membros do Partido Nacional Socialista, de Hitler".

Nunca perseguiu fisicamente ninguém. O seu trabalho era feito no escritório com a ajuda de duas secretárias e alguns colaboradores ocasionais. O maior e mais bem financiado Centro Simon Wiesenthal no mundo é o de Los Angeles, mas só o nome e algumas parcerias ligam as duas instituições. Aquele que quis "viver pelos mortos" também viveu pelos vivos, caso dos refugiados dos países de Leste. Cerca de oito mil pessoas passaram pelos centros de acolhimento por ele criados, antes de emigrarem, a maioria para os Estados Unidos.

fonte: PUBLICO
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