sexta-feira, março 14, 2014

Um Ano de Francisco



O Papa Francisco completa esta semana o primeiro ano do seu pontificado. À força de gestos, medidas cirúrgicas e exortações, já logrou fazer renascer a esperança na renovação da Igreja Católica. Esta imagem da revista Rolling Stone é mais do que um 'trend', de uma tendência da moda. É sobretudo a confirmação do incómodo que o Papa argentino tem causado, dentro e fora da estrutura da Igreja.

Os mais conservadores empurram tudo para uma questão de estilo e personalidade do novo Papa. Que é mais o 'espectáculo' da América Latina nos hábitos e nos gestos do que propriamente uma mudança de mentalidade no Vaticano. Que no fundo ele é apenas um cristão simples, de sabedoria jesuíta e espírito franciscano e que, na realidade, nada mudou, nem nada vai mudar. Que até mesmo as suas declarações sobre o estado social do mundo e da prática económica, nada mais são do que a exortação da doutrina social da Igreja, do primado da pessoa sobre a economia. Que não há nenhuma inversão ideológica no pontificado da Igreja Católica.

É verdade que o Papa Francisco ainda não introduziu nenhuma ruptura nos princípios da doutrina social da Igreja. Mas ao contrário dos seus antecessores, não hesitou, desde o primeiro momento, em colocar o dedo na ferida, de acentuar a questão das desigualdades sociais, incentivando para que se passe das palavras aos actos. E foi bem claro quando disse que "A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar (...). Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais" (EG, nº 202). 

E quando confrontado com as teorias da recaída favorável, que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social, o Papa deu uma resposta dura: "Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante" (EG, nº 54). E acrescentou: "Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo (...) requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição dos rendimentos (...) que supere o mero assistencialismo" (EG, nº 204). Perante isto, será impossível ignorar a força da mudança na mensagem do Papa.

E quando confrontado com os problemas que enfraqueceram Bento XVI e que João Paulo II nunca quis enfrentar, as terríveis questões da moral sexual e da família que assombram a Igreja Católica, o Papa Francisco não perdeu tempo. Convocou para Roma um Sínodo sobre a família e fez o que nunca tinha sido feito: mandou ouvir o povo. Com todas as consequências que daí advirão. E tudo isto no seu primeiro ano. Está instalado o incómodo, dentro e fora da Igreja, e o 'Papa do Povo' promete não ficar por aqui. Deus queira.

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