segunda-feira, janeiro 05, 2009

Fé vs Ciência

 


Li hoje uma entrevista muito interessante no The Guardian e reproduzida pelo Público, onde o cientista Richard Dawkins, autor dos livros “O gene egoísta” e “A desilusão de Deus”, defendeu que se há algo que pode mudar as concepções que a sociedade tem sobre o homem – que estão na base de muitas discussões éticas sobre temas como o aborto ou a eutanásia – é a “hibridação com sucesso entre um humano e um chimpanzé”.


Nesta discussão que envolve áreas tão conflituosas como a religião e a ciência, Dawkins explica que "a nossa ética e as nossas políticas assumem, na sua maioria sem questionarem ou sem discutirem seriamente o tema, que a divisão entre o humano e o ‘animal’ é absoluta. (...)Nas mentes de muitas pessoas, o zigoto humano [a célula que resulta da fusão de um óvulo e de um espermatozóide], que não tem sistema nervoso e não pode sofrer, é infinitamente sagrado somente por ser humano. Mais nenhuma célula tem um status tão nobre.” Este é o pensamento que está na base de políticas pró-vida que rejeitam o aborto e a eutanásia.


Defende o autor que "se houvesse um Paraíso com todos os animais que já viveram, o reflexo da evolução mostraria um continuo de animais que permitiria ligar-nos em rede, através da reprodução, tanto a um chimpanzé, como a um canguru ou a um peixe-gato". Esta é a teoria. Mas Dawkins diz que nada melhor que a prática para demonstrar este facto.


Pelo que, propõe quatro formas de demonstração da ligação entre todos os seres vivos do planeta: a descoberta de uma população de hominídeos vivos algures na Terra, a hibridação com sucesso entre um humano e um chimpanzé, a produção de uma quimera com células de chimpanzé e de humano e a produção, através de engenharia genética, de um ser com ADN das duas espécies.


As possibilidades são "chocantes" e "imorais" de acordo com os padrões instituídos na sociedade humana, programada para assumir a sua superioridade em relação ao todo -, facto bem explanado na famosa ideia de que "Deus fez o homem à sua imagem". A própria ideia de sermos um "acidente" evolucionário, é o suficiente para levantar discussões infindáveis entre os partidários da ausência de Deus e os teólogos do mundo inteiro.


Julgo que a questão não se deve propor nesses termos. Para mim não está em causa o combate a Deus ou a defesa da Fé. Está em jogo a compreensão do fabrico e dos processos da Natureza, ela sim, o verdadeiro toque de Deus - e aqui sim, longe da palas irredutíveis da Religião - bem como na promoção da defesa de todos os seres vivos deste planeta.


Esta é, sem dúvida, uma ideia apaixonante. E Dawkins tem uma tirada interessante: “É por isto que biólogos iminentes descreveram esta possibilidade como a experiência científica mais imoral que se pode imaginar: porque mudaria tudo!”.

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