quinta-feira, dezembro 04, 2008

Bela Maldição

 


Realmente há coisas que nem lembra ao diabo. Falamos de uma crise mundial quase todos os dias. Mas se perguntarmos individualmente ao Sr. Manuel ou à D. Maria, eles sabem que os bancos estão "apertadinhos", os preços sobem e tudo está mais caro e que as pensões são cada vez mais reduzidas. Se quisermos ir ao âmago da questão já levamos com uma resposta "ah, meu filho, isso já não são contas do meu rosário". E, se pensarmos bem, de facto, não são. Porque iríamos nós, madeirenses, criaturas encalhadas num pedaço de terra de 55 por 24, preocupar-mo-nos com o resto do mundo e seus problemas? Sobretudo quando aqueles que nos afectam directamente são bem mais importantes? E assim vive o Madeirense...


Parcialmente isolado, quer pelas condições geográficas, quer por vontade própria. Não sei se já fizeram estudos sobre a matéria mas seria interessante auscultar a população sobre esta matéria. Se por um lado são reconhecidos grandes vultos nas várias artes do homem saídos da Madeira, parece que estes sugam toda a vitalidade cultural e educacional da ilha, condicionando-nos à condição de ilhéus. Estarei com certeza a exagerar e, eventualmente, a ser injusto com muito boa alma desta terra que dá tudo o que tem (e que não tem) em prol de um destino melhor, mas esta é a sensação que fico com o passar dos anos.


E essa condição de isolado como que cria no Madeirense uma necessidade de saber tudo... o que não interessa! O trabalho dos outros, os carros dos outros, as roupas dos outros, a família dos outros, os amigos dos outros, os divertimentos dos outros, enfim... a vida dos outros. Agora, alguém sabe o que é um supercondutor? A termodinâmica? Ditongos? Um agravo? A diferença entre "há" e "à"? Uns saberão, outros não. Mas aqueles que não sabem também não se preocuparão em saber. E aqui reside o busílis da questão.


Se pegarmos este elevado desinteresse na auto-aprendizagem, e o associarmos ao "chico-espertismo" tipicamente português, temos um fantástico produto que se destaca pelas célebres frases: "se está a funcionar, não mexa", "se não sabe, inventa", "se não é problema meu, não tenho nada a ver com isso", e por aí fora... numa palavra: incompetência! Basta abrirmos os jornais. Só hoje o Diário traz uma quantas pérolas.



O caso do Porto do Funchal. A validade do certificado do Código Internacional para a Protecção dos Navios e das Instalações Portuárias (Código ISPS) cessa no último dia do ano. Mais, está desde 2005 sem Plano de Protecção aprovado e a viver de certificados ISPS provisórios, emitidos anualmente pelo Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos (IPTM). O que dizem os responsáveis? A Administração de Portos da Região Autónoma da Madeira (APRAM) tem um entendimento diferente e acha, do alto da sua sapiência, que o Porto do Funchal tem um Plano de Protecção aprovado, que apenas tem algumas desconformidades. Esquece-se é de dizer porque é que essas "desconformidades" não foram resolvidas antes de expirar o certificado internacional. É que, de facto, até nem é muito grave. "Só" afecta a escala dos navios-paquete e o desembarque de milhares de turistas. Nada de inultrapassável...


Outra linda. Na Inspecção Regional das Actividades Económicas (IRAE), os inspectores contestam o director Valentim Caldeira, pelo facto deste faltar ao pagamento de ajudas de custo e de horas extraordinárias e, sobretudo, por não implementar a avaliação de desempenho, estando a progressão das carreiras 'congelada' há oito anos. A resposta? A Secretaria Regional dos Recursos Humanos (SRRH), que tutela a IRAE, explicou que o atraso no pagamento das horas extraordinárias e das ajudas de custo resultam de "incorrecções no preenchimento dos formulários". Seria de julgar que oito anos seriam suficientes para aprender a preencher formulários. Ou a envia-los.


A apreensão de uma mala com 57 quilos de cocaína no domingo de manhã no aeroporto do Funchal veio denunciar a existência de um circuito paralelo de passagem de bagagens sem identificação para o porão no aeroporto de Caracas. O que disse o responsável da TAP, proprietária do avião que transportou a droga? Fez questão de salientar que "toda a gente sabe que Caracas é uma porta de saída do narcotráfico para a Europa", mas a responsabilidade é unicamente do próprio aeroporto, das entidades policiais e governamentais. A companhia aérea portuguesa apenas se preocupa com a salvaguarda da segurança dos passageiros e dos seus funcionários. E do transporte de malas com mais de 7 quilos na bagageira, digo eu. Continuou defendendo que o problema aconteceu porque "algo não funcionou bem no ponto de origem [Caracas] e também no de chegada [Funchal]", pelo facto de haver várias empresas que prestam assistência ao voo, nomeadamente ao nível da realização do 'check-in', despacho de bagagem, o que faz com que esta passe por várias mãos. E aqui vem o melhor: "não se pode pedir que todas as pessoas tenham seriedade naquilo que fazem". Não se pode? E eu que sempre julguei que responsabilidade e seriedade eram requisitos de contratação! Sou mesmo estúpido às vezes...



Uma mais pequenina mas bem reveladora. O contador de água de um dos blocos de apartamentos do Bairro do Hospital, no Funchal, está avariado há vários meses, provocando uma constante poça de água no chão e um elevado desperdício. A avaria existe no sétimo andar do Bloco 14, e está a preocupar os moradores daquele andar. A Câmara Municipal já foi informada da situação, mas dizem que nada podem fazer já que a responsabilidade é da Investimentos Habitacionais da Madeira. Escusado será dizer que esta também ainda nada fez. Querem ver que daqui a pouco sou eu que tenho de lá ir?


Como responde a nossa autoridade política perante todo este cenário? Promove a ignorância e as distracções baratas. Reserva 3 milhões e tal de euros para um teleférico em parque natural, património verde da humanidade, mas diz que tem de se conter nos gastos com os eventos culturais (leia-se teatro, leitura, arte popular, tradições, dança, música), quer seja em apoio directo aos grupos promotores, quer seja em criar condições para que elas se possam realizar. E isto sem falar da habitual táctica de despachar responsabilidades para o Continente. Tudo para o povo de betão embrutecido. Obri...gado meu povo!


O azar é que eu adoro a ilha. É a minha dádiva e a minha maldição.

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