terça-feira, outubro 28, 2008

A morte do Sistema V

 


Fazendo jus aqueles maravilhosos livros "... para totós", recebi um email fantástico sobre a crise da economica norte-americana (e mundial). Vale muito a pena ler.


Paulo comprou um apartamento, no começo dos anos 90, por 300.000 dólares, financiado em 30 anos. Em 2006 o apartamento do Paul passou a valer 1,1 milhão de dólares. Nessa altura, um banco perguntou ao Paulo se ele não queria um crédito, algo como 800.000 dólares, dando o seu apartamento como garantia. Ele aceitou o empréstimo, fez uma nova hipoteca e levou o dinheiro.


Com os 800.000 dólares, Paulo, vendo que imóveis não paravam de valorizar, comprou 3 casas em construção dando como entrada algo como 400.000 dólares. O remanescente - 400.000 dólares - do que Paulo recebeu do banco, ele usou para comprou carro novo para si, um carro para cada filho e com o resto do dinheiro comprou uma TV de plasma de 63 polegadas, 43 notebooks e 1634 cuecas. Tudo financiado, tudo o crédito. A esposa do Paulo, sentindo-se rica, usou e abusou do cartão de crédito.


Em Agosto de 2007 começaram a correr boatos que os preços dos imóveis estavam em queda. As casas que o Paulo tinha dado entrada e que ainda estavam em construção caíram vertiginosamente de preço e não tinham mais liquidez...


O negócio era refinanciar a própria casa, usar o dinheiro para comprar outras casas e revender com lucro. Fácil... parecia fácil. Só que todo mundo teve a mesma ideia ao mesmo tempo. As taxas que o Paulo pagava começaram a subir (as taxas eram pós fixadas) e o Paulo percebeu que o seu investimento em imóveis se transformara num desastre.


Milhões tiveram a mesma ideia do Paulo. Nunca houve tanta casa à venda. Paulo foi aguentando as prestações da sua casa refinanciada, mais as das 3 casas que ele comprou - como milhões de compatriotas - para revender, mais as prestações dos carros, das cuecas, dos notebooks, da TV de plasma e do cartão de crédito.


Entretanto as casas que o Paulo comprou para revender ficaram prontas e agora ele tinha que pagar uma grande parcela. Só que neste momento o Paulo achava que já teria vendido as 3 casas mas a realidade era outra. Ou não havia compradores ou os que havia só pagariam um preço muito menor ao que o Paulo havia pago e agora pedia. Paulo ficou sem liquidez. Começou a não pagar aos bancos as hipotecas da casa que ele morava, bem como das 3 casas que ele havia comprado como investimento. Os bancos ficaram sem receber de milhões de especuladores iguais ao Paulo.


Paulo optou pela sobrevivência da família e tentou renegociar com os bancos que não quiseram acordo. Então entregou aos bancos as 3 casas que comprou perdendo tudo o que tinha investido. Paulo quebrou. Ele e sua família pararam de consumir. Milhões de Paulos deixaram de pagar aos bancos os empréstimos que haviam feito baseado nos preços dos imóveis. Os bancos, por sua vez, haviam transformado os empréstimos de milhões de Pauls em títulos negociáveis. Esses títulos passaram a ser negociados com valor de face. Com a inadimplência dos Paulos esses títulos começaram a valer pó.


Bilhões e bilhões em títulos passaram a nada valer e esses títulos estavam disseminados por todo o mercado, principalmente nos bancos americanos, mas também em bancos europeus e asiáticos. Os imóveis eram as garantias dos empréstimos, mas esses empréstimos foram feitos baseados num preço de mercado desse imóvel. Preço que desceu vertiginosamente. Um empréstimo foi feito baseado num imóvel avaliado em 500.000 dólares e de repente passou a valer 300.000 dólares e mesmo por este valor não havia compradores.


Os preços dos imóveis eram uma bolha, um ciclo que não se sustentava, como os esquemas de pirâmide, especulação pura. A inadimplência dos milhões de Paulos atingiu fortemente os bancos americanos que perderam centenas de bilhões de dólares. A farra do crédito fácil um dia acaba. Acabou agora.


Com a inadimplência dos milhões de Paulos, os bancos pararam de emprestar por medo de não receber. Os Paulos pararam de consumir porque não tinham crédito. Mesmo quem não devia dinheiro não conseguia crédito nos bancos e quem tinha crédito não queria dinheiro emprestado. O medo de perder o emprego fez a economia travar. Recessão é sentimento, é medo. Mesmo quem pode, para de consumir.


O FED (o banco central dos EUA) começou a trabalhar de forma árdua, reduzindo fortemente as taxas de juros e as taxas de empréstimo interbancários. O FED também começou a injectar bilhões de dólares no mercado para promover liquidez. O governo Bush lançou um plano de ajuda à economia sob forma de devolução de parte do imposto de renda pago, visando incrementar o consumo, embora só daqui a alguns meses se veria alguns efeitos práticos.


O FED trabalhava. O mercado ficava atento e as famílias esperançosas. Até que na semana negra de Setembro o impensável aconteceu. O pior pesadelo para uma economia aconteceu: a crise bancária, com as pessoas correndo aos bancos para levantar as suas economias, pânico. Um dos grandes bancos da América, o Bear Stearns, amanheceu falido. O FED reagiu e, de forma inédita, fez um empréstimo ao Bear, apoiado pelo JP Morgan Chase, para que o banco não fechasse. Depois disso o Bear foi vendido para o JP Morgan por 2 dólares por acção, quando há um ano elas valiam 160 dólares. Durante a semana seguinte dezenas de rumores de falências de bancos assolaram a praça. Até que o Lehman Brothers, um dos maiores bancos do mundo, anunciou a sua falência, desempregando mais de 26 mil pessoas e provocando uma queda de mais de 500 pontos no Indice Dow Jones - que mede o valor ponderado das acções das 30 maiores empresas negociadas na Bolsa de Valores de New York - a maior queda num único dia, desde o “crash” de 1929.


O resto, meus amigos, é história.

Enviar um comentário