segunda-feira, outubro 08, 2007

Quinta Dimensão? Olhe que não...


A história a que segue foi-me contada por um colega e amigo lá do "rectângulo" e é, de uma certa forma, um reflexo (talvez exagerado), da crise de valores e identidade que as pessoas hoje em dia sofrem, sobretudo casais. Quanto a mais explicações de teor científico-cultural, deixo para os psicólogos e terapeutas.

Há cerca de 10 anos, em 1997, um casal jovem, na casa dos seus vinte e poucos anos, estavam muito apaixonados e decidiram dar o nó. Chamemos-lhes Paulo e Paula. Viveram dois felizes anos, e ao terceiro nasceu a primeira filha do casal. Dois anos depois, nasce a segunda filha. Com 5 anos de casamento concluídos e duas crianças no pedaço, ambos com relativo sucesso profissional nos seus empregos, a vida parecia sorrir ao Paulo e a Paula.

Mas por motivos que extravasam agora este relato, as coisas começaram a "arrefecer" entre os dois. Ao sexto ano, Paulo chegava a casa, jantava, dava uma espreitadela nas crianças e metia-se no computador. Paula, como mãe atarefada, cuidava das crianças e não sobrava muito tempo para dividir com o Paulo. Curiosamente, é também por essa altura que Paula começa a interessar-se pelo mundo cibernético, primeiro com a criação do seu blog pessoal, depois pelas conversas em chat.

Numa dessas conversas Paula conhece "homem_bonito21" e há um "click" imediato. Ao fim de uma semana de conversa, Paula está apaixonada. Roberto é o seu nome. Paulo parecia nem notar. E tinha boas razões para isso: tinha conhecido virtualmente "flor-de-lotus", uma "loura espampanante, que gostava de sair à noite e de um bom vinho. "Ao tempo que não saio à noite", disse Paulo várias vezes.

Passou um ano, e Paulo e Paula já não dispensavam as suas conversas com Rebeca (nome de flor-de-lotus) e Roberto. Ainda por cima tinham temas em comum. Cada um queixava-se do seu casamento. Passaram a falar sempre. Primeiro só em alguns períodos da noite, depois durante o dia. Paulo e Paula não pareciam inicialmente suspeitar destes "casos", um do outro. "Roberto dizia coisas maravilhosas, como o Paulo nunca me disse...", dizia Paula. "A Rebeca era divertida, simpática, com sentido de humor e deixava-me bem disposto", disse Paulo.

Agora com 8 anos de casamento, com a filha mais velha a entrar para a escola e mais nova na pré-primária, a relação entre Paulo e Paula tinha esfriado ao máximo. "Já não o suporto mais. Não fala comigo, não ajuda, não faz nada. É um inútil que passa a vida agarrado ao estúpido do computador", reclamava Paula. Paulo por sua vez queixava-se que Paula "está insuportável, sempre a se queixar disto e daquilo".

No ano passado, Paula tomou a iniciativa e dirigiu-se ao meu colega para se informar dos trâmites do divórcio. Contou que suspeitava que o marido tinha um caso e queria saber os seus direitos. Depois de averiguar as intenções da Paula, o meu colega convocou para uma reunião no seu escritório o Paulo, primeiro para se inteirar das intenções deste relativamente ao casamento e, igualmente, perceber se poderia haver ou não, algum entendimento. Paulo acabou por confessar que tinha uma relação "virtual" com uma terceira pessoa, e que estava disposto a apostar nessa relação a manter esta "farsa de casamento".

Numa das reuniões em conjunto, Paulo acabou por confessar a Paula que "tinha outra". Paula não quis ficar atrás e jogou-lhe com o Roberto, o tal "homem_bonito21". Paulo empalideceu imediatamente. "homem_bonito21", perguntou com a voz trémula, quase surda... uma pausa e pergunta "flor-de-lotus"? Baque... silêncio total!

O meu colega diz que eles levaram uns bons minutos a se recomporem do choque. Afinal Roberto e Rebeca, eram na realidade... Paulo e Paula. Foi embaraço total, foi uma mistura de sentimentos, que a reunião acabou por ficar por ali.

Não sei exactamente o que aconteceu depois, mas sei que, este ano, em Maio de 2007, salvo erro, Paulo e Paula divorciaram-se formalmente. Motivo? Paula não conseguia perdoar a traição do marido. Paulo igualmente.

Sinal dos tempos? Falta de comunicação? O que dizer deste caso, tão "sui generis"? O que dizer de duas pessoas que se apaixonam casam, dão cabo do seu casamento, e voltam a se apaixonar, desta vez virtualmente? Francamente, não sei. Mas deixa muito, mas muito que pensar.

Enviar um comentário