terça-feira, julho 31, 2007

"Uma verdade inconveniente"

Opinião - Luis Miguel Rosa
Uma verdade inconveniente
Data: 31-07-2007

Espero que o Al Gore não se chateie por lhe pedir emprestado o título do seu fantástico documentário sobre a defesa do ambiente, mas é, sem dúvida, o mais ajustado e adequado àquilo que vos quero hoje transmitir. Tenho a certeza que ele não se aborrecerá. Decidi, neste período de "defeso", reflectir sobre um tema cuja polémica ganha contornos "hospitalares" - o futuro estádio do Clube Sport Marítimo.

Como todos nós temos perfeita consciência, vivemos hoje num período de "vacas magras" (para não as chamarmos por outros nomes piores). Desde que fomos apresentados ao Euro, o nosso custo de vida duplicou, ao arrepio do acompanhamento salarial. Todos se recordam de quanto custava um café no final do milénio e quanto custa actualmente. Esta situação teve e tem reflexos, não só a nível pessoal, mas igualmente a nível do Estado - reflexo de uma grave falência do estádio providência. A população envelhece, a mão-de-obra escasseia, o preço do barril de petróleo sobe, os impostos acompanham, a despesa exterior acumula-se. Com a centralização da moeda no Banco Central Europeu e em outras instituições internacionais, os próprios Estados perderam o trunfo da sua produção, sujeitando-se agora às inconstâncias do mercado mundial. Com custos acrescidos.

Que não se iluda, caro leitor. Os tempos são de crise. Simplesmente, cada vez há menos dinheiro disponível para todos nós. E a Madeira não é uma excepção.

Mas uma coisa que não diminui: a necessidade. Em particular, as necessidades da população - escolas, hospitais, empregos, pólos para a pratica desportiva; água, alimentos, cuidados medicamentosos… necessidades a que o Estado tem que acorrer, nem que seja permitindo que outros as possam prestar. Assim, há que ponderar, há que racionalizar, há que optimizar recursos e aplicá-los da forma mais correcta e concreta possível.

Agora vamos ao que interessa. Um estádio, seja em que local do mundo esteja, nunca será uma prioridade. Sobretudo quando está apenas para servir uma única modalidade desportiva (mesmo que essa seja o desporto-rei). Mas, mesmo não sendo uma prioridade - isto quando comparado com a necessidade de escolas, estradas, hospitais, bibliotecas, recintos desportivos para o uso do cidadão - poderá ser (e com certeza o é), uma necessidade em determinado ponto. E actualmente é uma necessidade para a Madeira. Imagino concertos, óperas, bailados, desportos "extremos", artes circenses, eventos culturais de grande escala... e sim, é claro, as partidas de futebol...

Na minha opinião um estádio digno e em condições é suficiente para a Madeira. Um estádio que sirva o Marítimo e o Nacional (visto que são as duas equipas que disputam a Liga) é suficiente. É a situação mais racional, mais lógica, mais optimizada, mais de acordo com os tempos de crise que se vivem hoje em dia. No entanto, essa é uma oportunidade perdida. O Nacional já tem o seu estádio. O União idem. Machico, Ribeira Brava, Portossantense idem. Curiosamente (ou não), o único que não o tem é o Marítimo, o que, nestes contornos, torna legítima a sua indignação e consequente reclamação.

Mas, aquilo que seria natural esperar, tem sido alvo de valentes críticas, algumas vindas de sectores que pouco ou nada têm a ver com despesas e apoios públicos. Sempre que se ouve falar em estádio para o Marítimo, levantam-se vozes a bradar despesismo, a clamar por hospitais, discute-se apoios e dinheiros gastos com futebol. Percebe-se o objectivo por detrás: descredibilizar o projecto e frustrar as intenções maritimistas. Percebe-se por aquilo que querem esconder...

Alguém já perdeu tempo a contabilizar quanto foi gasto com recintos desportivos (leia-se estádios) na Região, nos últimos 5 anos? Construiu-se um novo complexo na Ribeira Brava. Ninguém disse nada. A AFM finalmente realizou o seu desejo com o Complexo de Gaula. Ninguém disse nada. E quanto já foi injectado para a nova "bancada" do estádio da Madeira? Pelas minhas contas já vai em mais de 20 milhões de euros. Ninguém diz nada.

No entanto, um estádio que ainda nem sequer passou do papel é o culpado por não haver dinheiro para outros projectos? Por alegadamente não haver dinheiro para um novo Hospital? Por alegadamente não haver dinheiro para as senhoras da Região, obrigando-as a se deslocar ao continente para serem "voluntariamente assistidas"?

Doa a quem doer, o Marítimo vai ter o seu estádio. Frustrada que foi a renovação dos Barreiros, frustrada que foi a intenção de um estádio conjunto, é inqualificável que se gaste milhões e milhões de euros em projectos (esses sim megalómanos) de clubes de dimensão claramente reduzida, e ao mesmo tempo se queira que o maior clube da Região e um dos maiores de Portugal, o maior responsável pela promoção da ilha no exterior ao longo dos anos, não tenha ambições, nem mereça sequer o apoio dos responsáveis regionais. Mais inqualificável é que se queira esconder estas verdades… verdadeiramente inconvenientes.

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