terça-feira, abril 11, 2006

O Evangelho Proibido de Judas

Novo evangelho reabilita figura de Judas Iscariotes

Porque é que Judas Iscariotes traiu e denunciou Jesus de Nazaré aos romanos? A questão atormenta os católicos e alimenta o sentimento anti-semita desde os primórdios do Cristianismo. Agora, o reaparecimento de um manuscrito com mais de 1700 anos oferece uma nova luz sobre os acontecimentos que precipitaram a captura e posterior crucificação de Jesus.

O Evangelho de Judas, uma cópia em copta de um texto do século II atribuído a um grupo cristão gnóstico, apresenta uma versão radicalmente diferente da ligação entre Jesus e Judas, que é retratado como o discípulo preferido a quem é confiada a missão de salvação de Cristo.

"Este é o relato secreto da revelação que Jesus confiou em segredo a Judas Iscariotes três dias antes da Paixão", principia o Evangelho de Judas, um documento do qual existiam apenas referências verbais que remontam a 180 d.C. O Evangelho de 13 páginas está contido num códice que foi desenterrado nos anos 70 das areias de El Minya, no Egipto, e que esteve fechado em cofres e até num frigorífico até ser confiado à Fundação Mecenas para a Arte Antiga da Suíça.

Um complexo e avultado processo de reconstituição patrocinado pela National Geographic Society confirmou a veracidade do documento, um genuíno exemplar da literatura apócrifa cristã do ano 300. Como repetiram os vários académicos convidados a analisar e comentar o Evangelho, a descoberta do texto não implicará qualquer reescrita da História - o relato confirma, como muitos outros documentos da antiguidade cristã, as acções do discípulo de Jesus. Mas abre a porta à reabilitação daquela que é uma das mais intrigantes e mal-amadas figuras do Cristianismo.

"Aqui Judas não é o malvado, corrupto, perverso e quase demoníaco seguidor de Jesus que trai o seu mestre; é, pelo contrário, o mais íntimo e próximo amigo de Jesus, aquele que conhecia e compreendia Jesus melhor do que qualquer outro e que apenas denunciou Jesus às autoridades porque essas foram as suas instruções", sublinha Bart Ehrman, director do departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte.

"Tu excederás todos os outros. Pois tu sacrificarás o homem que me veste", escrevem os autores (desconhecidos) do Evangelho de Judas. O documento descreve conversas em que Jesus revela a Judas Iscariotes as verdades do mundo - o caos, o cosmo, os anjos, a criação da humanidade -, reforçando a ideia de que aquele era o discípulo predilecto e o único capaz de compreender o seu mestre. "Afasta-te dos outros e eu dir-te-ei todos os mistérios do reino. É possível alcançá-los, mas sofrerás muito", diz Jesus. O Evangelho aborda ainda o desprezo dos outros discípulos: "Numa visão, vi-me no meio dos doze discípulos, que me perseguiam e apedrejavam", descreve Judas. "Serás amaldiçoado pelas outras gerações -, mas acabarás por governar sobre elas", responde Jesus.

A verdade é que nenhum dos textos canónicos, nomeadamente os quatro evangelhos do Novo Testamento, oferece uma explicação consistente para a traição de Judas: Mateus, Marcos, Lucas e João interpretam de maneiras diferentes o mais enigmático episódio da Paixão de Cristo, apontando a ganância ou a influência do demónio como as razões que levaram Judas a denunciar Jesus às autoridades romanas. Agora, o Evangelho de Judas avança a predilecção de Jesus, e a devoção do seu discípulo, como os motivos que estão por trás da traição.

fonte: PUBLICO

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