quarta-feira, agosto 22, 2007

Os Jena Six

Esta é a árvore onde tudo começou. Entretanto já foi abatida...

Esta tem de ser contada. Há alguns dias atrás estive a ver um filme chamado "A Time to Kill" (baseado na obra homónima de Josh Grisham, publicada em 1987), cuja a acção se situava numa cidade qualquer no estado do Mississipi, nos EUA, onde muito sumariamente um fulano negro estava a ser julgado na pena máxima por ter morto os dois brancos que haviam raptado, violado, e morto a sua filha de 7 anos. Era um julgamento num estado "branco", com um juri "branco", segundo leis "brancas" (assim era descrito). No final do filme, a minha Luísa perguntou "mas isto ainda é possível hoje em dia?"...

Há coisas que nem a propósito... em Setembro de 2006, um grupo de estudantes afro-americanos de Jena, no Louisiana, nos EUA, pediram permissão à escola para se sentar à sobra de uma árvore. Aparentemente havia uma regra não escrita que reservava a árvore exclusivamente para brancos. A resposta da escola foi que não se importava onde se sentavam os alunos. Assim sentaram-se. No dia seguinte, quando estes estudantes negros chegaram à escola, encontraram três cordas de laços, penduradas na árvore.

Os rapazes que lá puseram as cordas foram suspensos por alguns dias. A administração escola considerou esta situação como uma piada inofensiva, embora de mau gosto. Mas a população negra de Jena, não achou nenhuma piada. Lutas e insultos espalharam-se pela escola. Estudantes negros foram assaltados nas festas. Numa loja de conveniência um homem branco sacou de uma pistola carregada contra três jovens negros. Alguém tentou incendiar a escola. O procurador do Ministério Público de Jena, LaSalle Parish, foi chamado a dirigir-se aos estudantes negros e disse-lhes que podia "acabar com a vida deles com com um traço da sua caneta".

Até que, a 4 de Dezembro de 2006, despoletou uma luta na escola que acabou com 6 estudantes negros (que ficaram conhecidos como os "Jena Six"), a serem acusados de tentativa de homicídio do estudante branco Justin Barker. O Ministério Público pediu o máximo de pena, o que importava até 22 anos de prisão.

Para sustentar este pedido, o MP transformou uma briga de estudantes, num pátio da escola, onde a suposta vitima sofreu apenas escoriações (que de tão ligeiras não exigiram hospitalização e lhe permitiram assistir, ainda nesse dia, a um evento social na sua escola), num homicídio qualificado. Assim de uma "penada" implicou 6 jovens negros (entre os 15 e os 18 anos) nesse crime. Mais tarde, como esta acusação era insustentável, transforma-a no dia do julgamento de um dos implicados, Mychal Bell, em "agressão agravada e conspiração", e como tal acusação implica a existência de uma arma perigosa, acusa o jovem Mychal de ter utilizado um ténis como arma.

Sim... leu bem. Um ténis!

A 1 de Julho de 2007, Mychal Bell, de 17 anos, foi condenado por um júri formado apenas por brancos (que numa sociedade multirracial, onde a escolha dos membros se faz inicialmente, por sorteio, saírem todos brancos é obra). Após apenas três horas de sessão, este júri considerou-o culpado por ter causado lesões graves de segundo grau e por conspiração para cometer tal delito, sujeitando-o a uma sentença que pode ir até 22 anos de prisão. Desta “conspiração” alegada contra Mychal participam os outros cinco jovens negros, que também estão ameaçados de condenação.

A leitura da sentença estava marcada para o dia 31 de Julho mas foi posteriormente adiada para 20 de Setembro. Entretanto, Mychal Bell continua a aguardar a decisão na prisão de Jena, dado que os seus pais não tiveram possibilidade de lhe pagar a fiança, que foi fixada em 90 mil dólares (numa comunidade onde o rendimento médio familiar é de cerca de 38 mil dólares).

Pois é. Mas retomando a pergunta "isto ainda é possível acontecer hoje em dia?", a resposta é só uma: sim, infelizmente sim... porque há pessoas neste mundo que não merecem o ar que respiram.

Enviar um comentário