quinta-feira, fevereiro 23, 2006

O Espantoso Caso de Phineas Gage


Phineas Gage era um jovem supervisor de construção de ferrovias da Rutland e Burland Railroad, em Vermont, EUA. Em 1848 de Setembro, enquanto preparava uma carga de pólvora para explodir uma pedra, inadvertidamente socou uma barra de aço para o buraco. A explosão resultante projectou a barra, com 2.5 cm de diâmetro e mais de um metro de comprimento contra o seu crânio, a alta velocidade. A barra entrou pela bochecha esquerda, destruiu o olho, atravessou a parte frontal do cérebro, e saiu pelo topo do crânio, do outro lado. Gage perdeu a consciência imediatamente e começou a ter convulsões. No entanto, inexplicavelmente recuperou a consciência momentos depois, e foi levado ao médico local, Jonh Harlow que o socorreu. Incrivelmente, Gage falava e podia caminhar. Apesar de ter perdido muito sangue, e depois de alguns problemas com infecções, ele não só sobreviveu à horrenda lesão, como também recuperou fisicamente.

Porém, pouco tempo depois Phineas começou a ter mudanças surpreendentes na personalidade e no humor. Ele tornou-se extravagante e anti-social, praguejador e mentiroso, com péssimas maneiras, e já não conseguia manter-se num trabalho por muito tempo. "Gage já não era Gage", disseram os seus amigos. Ele morreu em 1861, treze anos depois do acidente, sem dinheiro e epiléptico, sem que uma autópsia fosse realizada ao seu cérebro. O médico que o atendeu, John Harlow, entrevistou amigos e parentes, e escreveu dois artigos sobre a história médica reconstruída de Gage, um em 1948, intitulado "Passagem de uma Barra de Ferro Pela Cabeça", e outro em 1868, intitulado "Recuperação da Passagem de uma Barra de Ferro Pela Cabeça".

Phineas Gage tornou-se um caso clássico nos livros de ensino de neurologia. A parte do cérebro que ele tinha perdido, os lobos frontais, passou a ser associada às funções mentais e emocionais que ficaram alteradas. Harlow acreditava que, "o equilíbrio entre as faculdades intelectuais e as propensões animais tinham sido destruídas".

O crânio de Gage foi mais tarde recuperado, e preservado no Warren Medical Museum da Universidade de Harvard. Mais recentemente, dois neurobiologistas portuguêses, Hanna e Antônio Damasio da Universidade de Iowa, utilizaram computação gráfica e técnicas de tomografia cerebral para calcular a provável trajetória da barra de aço pelo cérebro de Gage, e publicaram os resultados na "Science", em 1994. Eles descobriram que a maior parte do dano deve ter sido feito à região ventromedial dos lobos frontais em ambos os lados. A parte dos lobos frontais responsável pela fala e funções motores foi aparentemente poupada. Assim concluíram que as mudanças no comportamento social observado em Phineas Gage foram provavelmente devidos a esta lesão, porque os Damasio observaram o mesmo tipo de mudança em outros pacientes com lesões semelhantes, causando déficits característicos nos processos de decisão racional e de controle da emoção.

fonte: Renato M.E. Sabbatini, "in" Revista "Cérebro & Mente", Junho de 1997
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