sexta-feira, setembro 02, 2005

Restos humanos na origem da BSE ?

BSE pode ter tido origem em rações com restos de cadáveres humanos

A doença das vacas loucas pode ter começado porque o gado no Reino Unido foi alimentado com rações que continham restos humanos, provavelmente provenientes da Índia. Parece o enredo de um filme de terror, mas é uma nova hipótese sobre a origem da BSE veiculada por dois cientistas britânicos na conceituada revista médica The Lancet.

Alexandre Galo, ex-director do Laboratório Nacional de Investigação Veterinária, que identificou os primeiros casos de bovinos com BSE em Portugal em 1990, confessa-se "atónito", mas impressionado com o artigo. A hipótese é que restos de cadáveres deitados ao rio Ganges podem acabar misturados em materiais exportados pela Índia para países como o Reino Unido, para produzir farinhas proteicas para animais.

"É a primeira vez que ouço esta teoria. Nunca me tinha passado pela cabeça que houvesse sítios no mundo que exportassem restos humanos para alimentação de animais", comenta Alexandre Galo.

Deduções para formular uma hipótese

Alan Colchester (Universidade de Kent) e Nancy Colchester (Universidade de Edimburgo) são os autores do artigo, que se lê como um conjunto de deduções dignas de Sherlock Holmes. Não apresentam propriamente provas, nem relatam experiências que tenham feito - e sublinham que se trata de uma hipótese, apelando à investigação urgente sobre a matéria, de preferência sob os auspícios da Organização Mundial de Saúde. Mas coligem dados que revelam quão pouco sabemos ainda sobre as encefalopatias espongiformes transmissíveis, como a BSE e a sua forma humana, a variante da doença de Creutzfeldt-Jakob.

Existem várias formas destas doenças nos humanos, e aceitou-se como explicação que a doença das vacas tenha sido produzida pelo consumo de rações em que foram incorporados restos de ovelhas com uma doença semelhante à BSE, chamada scrapie. Mas esta teoria, apesar de aceite pelos cientistas, tem uma grande fraqueza: nunca se conseguiu infectar vacas por comerem rações com restos de ovelhas com scrapie, sublinha o artigo.

"Às vezes, quando procuramos uma explicação, apegamo-nos a certas coisas com facilidade", diz Alexandre Galo. Só se conseguiu que as vacas desenvolvessem a doença se os tecidos de ovelhas lhes fossem injectados directamente no cérebro. "Isto quando basta menos de uma colher de chá de cérebro de vaca para infectar outra vaca por via oral", sublinha o investigador. Também não há resposta para outra interrogação: se a scrapie está identificada há 200 anos, e se pelo menos há 70 que se usam rações para gado com restos de animais, porque é que a BSE só foi identificada em 1986, no Reino Unido?

A importação por este país de grandes quantidades de materiais como ossos inteiros e esmagados e partes de carcaças para produzir rações e fertilizantes, provenientes da Índia, do Paquistão e do Bangladesh, nas décadas 60 e 70, pode ter a ver com isso.

Recolha de ossos

"Na Índia e no Paquistão, a recolha de grandes ossos e carcaças do campo e dos rios é, há muito, um negócio dos camponeses. Também há quantidades consideráveis de restos humanos, em resultado de costumes religiosos" hindus, diz o artigo, cujo principal autor, Alan Colchester, é um médico que tratou vários dos 150 casos da variante da doença de Creutzfeldt-Jakob no Reino Unido. "O ideal é que um morto seja cremado, mas a maior parte das pessoas não tem dinheiro para comprar lenha para a cremação total, pelo que queimar o pélvis nas mulheres e o tórax nos homens tem uma importância simbólica. Muitos cadáveres completos são simplesmente lançados ao rio", sobretudo ao Ganges, diz o artigo. "Em 2004, um grupo de voluntários numa campanha contra a poluição recolheu 60 cadáveres humanos em dois dias ao longo de dez quilómetros do Ganges.

" O que se supõe é que entre esses cadáveres podem ter estado pessoas com uma forma esporádica da doença de Creutzfeldt-Jakob (que ataca pessoas mais velhas, já existia antes da BSE e não está relacionada com a doença das vacas), e que os seus tecidos tenham entrado na cadeia alimentar. Nos últimos 37 anos, a Índia tem registos de 85 casos da forma esporádica da doença de Creutzfeldt-Jakob, e nenhum de vacas infectadas com BSE, diz, num comentário publicado também na The Lancet, Susarla Shankar, do Instituto Nacional de Saúde Mental e Neurociências, em Bangalore, a instituição de referência indiana para tratar destes casos, que reconhece a necessidade de estudar esta questão.

Doença subestimada

Pode parecer pouco, mas os cientistas britânicos sublinham que estas estatísticas não serão seguras, pois a doença está subestimada. "A prevalência é de 0,5 a um caso por milhão de habitantes e por ano; mas, embora não seja uma doença comum, está com certeza subestimada", esclarece Alexandre Galo. O mais preocupante é que este cenário de terror pode continuar hoje.

"É altamente provável que a incorporação de restos humanos em materiais exportados tenha ocorrido pelo menos desde o final dos anos 50 e pode ainda continuar. Há muitas notícias nos meios de comunicação, de vários países, de um comércio continuado de restos humanos, incluindo a da prisão, em 2001, de um negociante em Calcutá, por exportar ossos humanos para outras partes da Índia, Paquistão e EUA.

"Seja como for, este assunto tem toda a urgência em ser investigado, diz Alexandre Galo: "Este artigo é escrito com cuidado, foi preciso muita coragem para o escrever. Aquilo de que fala merece, e tem de ser, estudado rapidamente."

fonte: PUBLICO

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