Cerca de 80 por cento do produto interno bruto do mundo pertence aos mil milhões de pessoas que vivem em países desenvolvidos; os restantes 20 por cento são partilhados pelos cinco mil milhões de habitantes dos países em desenvolvimento. A constatação abre um relatório sobre a situação social mundial elaborado pelas Nações Unidas e ontem divulgado.
O documento, que compila estatísticas de diversas organizações internacionais, mostra que a desigualdade a nível mundial é hoje maior do que há dez anos. Isto, apesar do crescimento económico registado em muitas regiões do planeta. O número de desempregados subiu e metade dos trabalhadores de todo o mundo vive com dois dólares ou menos por dia. Um em cada quatro dos que trabalham nos países em desenvolvimento subsiste mesmo com menos de um dólar.
O desemprego, lê-se ainda no Relatório sobre a situação social mundial 2005: o problema da desigualdade, atingiu valores inéditos. Há dois anos, data das últimas estatísticas, 186 milhões de pessoas estavam desempregadas. Em 1993 eram 140 milhões. Os jovens são especialmente vulneráveis - representam 47 por cento dos que não têm trabalho. A incapacidade de os países integrarem esta mão-de-obra jovem tem consequências várias: desde o aumento da instabilidade nacional ao crescimento acelerado da chamada "economia informal".
De resto, a maioria dos trabalhadores com salários muito baixos estão envolvidos na economia informal - são vendedores nas ruas, são empregados domésticos ou trabalhadores por conta própria, por exemplo. É aqui que os ordenados são mais baixos. E que o risco de pobreza é maior, uma vez que a protecção social é escassa ou inexistente.
Também dentro de cada país as disparidades fazem sentir-se em muitos casos de forma mais aguda, nomeadamente ao nível dos salários. As políticas adoptadas nos últimos anos "produziram importantes mudanças no mercado de trabalho e nas leis laborais", que passaram por uma "diminuição dos ordenados mínimos e por um aumento dos salários mais altos".
As nações mais ricas não escapam ao aumento do fosso entre os que recebem muito e os que recebem pouco, entre os trabalhadores qualificados e não qualificados: o Canadá, o Reino Unido e os Estados Unidos são apontados como aqueles onde as disparidades em termos de rendimentos são maiores.
Mas as desigualdades existem também na área da saúde, da educação - e aumentaram em muitos casos. Medem-se através de dados como a esperança de vida ou a mortalidade infantil.
Mais pobreza extrema na África subsariana
A percentagem de crianças inscritas no ensino básico era em 2001, no mundo, de 84 por cento (idêntica à observada em 1998), o que reflecte sobretudo as elevadas taxas de escolarização de regiões como a Ásia Central, a Europa Ocidental ou a América do Norte. Já na África subsariana ela desce para 62,8 por cento (mais cinco por cento do que em 98), sendo ainda mais baixa se forem tidas em linhas de conta apenas raparigas. Esta é uma outra forma de desigualdade que teima em persistir: a de género.
O documento recorda ainda que a proporção da população mundial que vive em pobreza extrema (subsiste com menos de um dólar por dia) baixou de 40 para 21 por cento entre 1981 e 2001. No entanto, o desenvolvimento registado pela China (país onde a proporção de pessoas nessa situação baixou de 64 para 17 por cento entre 1981 e 2001) e pela Índia contribuem muito para esta evolução positiva. Noutros locais a situação agravou-se. Na África subsariana, sobretudo, onde a taxa de pobreza extrema aumentou de 42 por cento em 1981 para 47 por cento em 2001. Mas também na Europa e Ásia Central, onde passou de um para quatro por cento da população.
Por tudo isto, as Nações Unidas lançam agora o alerta. "O desenvolvimento económico é necessário, mas não é condição suficiente para reduzir a pobreza. Não conseguiremos promover as prioridades de desenvolvimento sem superar os desafios da desigualdade dentro dos países e entre os mesmos", sublinha José António Ocampo, secretário-geral adjunto para os assuntos económicos e sociais nas Nações Unidos.
Para impedir o conflito e a violência a nível mundial, há que dedicar atenção à necessidade de reduzir as desigualdades no acesso a recursos e oportunidades, refere-se ainda no relatório. As recomendações deixadas na sequência do relatório da ONU sublinham por isso a necessidade de aumentar as oportunidades de emprego, dar especial atenção aos jovens e melhorar as condições que existem na economia informal através da realização de programas de protecção social.
fonte: PUBLICO
1 comentário:
Grande blog... era mesmo disto que eu precisava =) obrigado
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