quarta-feira, março 09, 2005

"Oportunidades Perdidas" por Ferreira Fernandes

Hoje li um artigo de opinião pelo jornalista Ferreira Fernandes, que havia sido publicado na revista "Sábado" a 29 de Outubro do ano passado. É bastante interessante e achei de compartilhá-lo com outros que não o leram. Aqui vai então...



Ferreira Fernandes

"Tive uma ideia brilhante: contratar os chineses para tratar do nosso passado. Lembram-se da entrega de Macau, há cinco anos? Que era um mundo que se perdia, uma memória apagada... nunca mais tabuletas de português fantástico, adeus aos fantasmas de Camões e Camilo Pessanha, à beleza das vivendas de Coloane à maneira da velha Goa (ou da velha Luanda ou da velha São Luís do Maranhão), adeus. Em 1999, Macau português, velho de 450 anos, acabaria.

Pois. Mas acabo de ler no New York Times o contrário. Uma reportagem conta-me que a China aposta no passado de Portugal. E sabe-se como em Macau apostar é um negócio sério. Dá-se lustro às fachadas coloniais, pintam-se os fortes, acrescenta-se em português todos os sinais públicos chineses, põe-se a Rádio Macau a tocar fado e Cesária Évora... na UNESCO, por causa do seu passado português!, candidata-se Macau a património mundial.

Por que raio deu agora uma febre de lusotropicalismo aos chineses? Pelos nossos olhos lindos? Seguramente não, os chineses não são dedicados à generosidade. A razão é maravilhosamente interesseira. Eles gostam do Macau português porque ele lhes interessa.

Há um mundo de 220 milhões de pessoas a falar português e Macau é a ponte da China para esse mundo. Ser ponte é uma vocação local. Macau fez-se (construiu a Igrejad da Madre de Deus e a de S.Paulo) com a prata que circulava na Nau do Trato, que os japoneses chamavam de Kurofoné (Navio Negro), entre Goa e o Japão. Então, hoje, por causa do Brasil (maior cliente brasileiro: EUA; segundo: China) e por causa do petróleo de Angola, Macau forma tradutores luso-chineses. E o português floresce: nas escolas há cinco mil estudantes da nossa língua. "Dentro de poucos anos, haverá mais gente a falar português do que no tempo em que Portugal cá estava", disse o dono da Livraria Portuguesa ao jornal americano.

E foi por isso que tive a brilhante ideia: contrate-se os chineses. Por isso e porque passava por um mural da cidade Monterey, na costa californiana. O mural era justamente sobre os chineses em Monterey. Estiveram ali, cerca de 70, partiram em 1907 e nada mais se sabe deles. Mas têm mural. E, lá está, não há mural nenhum sobre portugueses em Monterey. Quer dizer, não há moral nenhuma.

É que os portugueses estão ligados a Monterey antes de esta se ter tornado estância de turismo, quando toda ela era um cheiro intenso a sardinha, das suas traineiras e fábricas de conserva. Hoje, a memória das centenas de portugueses que, desde meados do século XIX trabalharam, nasceram e morreram em Monterey está nos livros de John Steinbeck (Big Joe Portagee, personagem de Tortilla Flat, é assim chamado pela óbvia razão de ser português), pois está. Mas nos lugares de divugação, a memória dos portugueses desapareceu, como o cheiro a sardinha. Não calculam o sentimento de falta, a injustiça, o desperdício, a estupidez que é a ausência de um restaurante português em Monterey. Ou de um folheto sobre os portugueses de Monterey.

Toda a costa californiana foi colonizada por postos solitários de açorianos, à coca da baleia. Eu sei porque li as crónicas do velho Eduardo Mayone Dias, sábia desta presença em terras da California. Mas esse é um prazer meu. E eu não estou a falar em prazeres, mas em interesse. Não há ninguém com poder, governamental ou financeiro, que entenda que Portugal poderia beneficiar fazendo saber ao maior número possível de pessoas que a mais bela estrada do mundo, a marginal californiana, se chama Cabrillo Highway em homenagem ao descobridor da Califórnia, que é um português? E que não é Cabrillo, mas Cabrilho?

Sabem que, na outra costa dos EUA, na cidade de New Bedford, outrora capital da caça à baleia, há livros sobre tudo, incluindo Os negros nos baleeiros, mas nenhum sobre Os portugueses nos baleeiros? No entanto, a mais importante etnia de New Bedford é a portuguesa. E é difícil ler o rol de um baleeiro do século XIX sem encontrar um nome português. Aliás, se se fala dos negros baleeiros é porque eles são cabo-verdianos, a variante negra dos portugueses.

Sabem que Nova Iorque comemora os 350 anos da chegada dos seus primeiros judeus com uma exposição que se chama Pernambuco-Nova Iorque? Sem nenhuma alusão a Portugal. Não ficariamos a ganhar um bocadinho ao dizer à importantíssima comunidade judaico-americana que esses pioneiros eram sefarditas, um pouco de nós?

Empaturrados de história, os portugueses vivem a desprezar a sua. Fazem mal, porque é um bom negócio, como nos poderiam explicar os chineses. Parecemos todos uma Teresa Heinz Kerry a dizer que é de uma vaga "África Oriental", quando poderia ser de duas coisas extraordinárias: de Moçambique e de Portugal.

Eu, por mim, gosto de me voltar e ver sombra."

in "Revista Sábado"

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