O arcebispo de Génova, cardeal Tarcisio Bertone, foi encarregue pelo Vaticano de desmentir os alegados erros que o escritor Dan Brown publicou no livro “O Código da Vinci”, durante um seminário que decorreu em Itália, avançou ontem a BBC. De acordo com a mesma fonte, a Igreja Católica sente-se incomodada por várias pessoas estarem a acreditar naquilo que o cardeal Tarcisio Bertone considera serem as «vergonhosas e infundadas mentiras» do “best-seller”.
Segundo a história veiculada pelo livro, a Igreja terá ocultado que Jesus e Maria Madalena casaram e tiveram descendência. Tarcisio Bertone revelou ao periódico italiano “Il Giornale” estar «atónito e preocupado» por «tantas pessoas acreditarem nas mentiras» do romance, situação reforçada por uma nota, apresentada na abertura do livro, que assegura que todas as referências feitas à arte, arquitectura, rituais e sociedades secretas são «factos históricos». O arcebispo de Génova pretende desmentir publicamente as «distorções e erros» com que, na opinião da Igreja, Dan Brown quis «desacreditar» aquela instituição, sendo que o primeiro debate público — intitulado “Estória sem História” — tem lugar quarta-feira em Génova.
O escritor norte-americano — de quem foi recentemente lançado em Portugal “Anjos e Demónios”, romance que narra um episódio anterior ao de ”O Código da Vinci” — afirmou anteriormente que «uma organização tão antiga e poderosa como o Vaticano não poderia alcançar o poder que ostenta sem guardar alguns segredos de família».
Apesar da controvérsia — ou talvez devido a ela — Dan Brown não parece disposto a abandonar o género de romance em que se tornou bem sucedido e no qual se sente bastante à-vontade, até por ser filho de um professor de Matemática e de uma compositora de música sacra. Brown, um apaixonado pelos conflitos entre ciência e religião, por códigos ocultos e por simbologia, voltou a abrir as portas de um género em que tem já inúmeros seguidores e autênticas legiões de leitores em todo o Mundo. E, muito embora o Vaticano compare o romance aos «panfletos anticlericais» do século XIX, a verdade é que “O Código da Vinci” soma mais de 18 milhões de exemplares vendidos em 44 idiomas, estando já em curso a adaptação do livro para o cinema.
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Mais uma vez o Vaticano procura determinar o modo de vida das pessoas de acordo com os seus cânones e princípios, por mais ortodoxos ou fundamentalistas que estes se venham a revelar. E, se a «Santa Inquisição» já não existe, hoje é a sua condigna sucessora, a «Congregação para a Doutrina da Fé», chefiada pelo Cardeal Joseph Ratzinger, quem actualmente controla a ortodoxia dos "ensinamentos católicos".
E esses ensinamentos revestem as mais variadas formas: desde influências sobre determinadas áreas governamentais e legislativas, à completa proibição de acesso às mais diversas áreas do conhecimento humano. Não vão por aí espalhar-se boatos insidiosos de que a Terra é redonda, ou que a mulher afinal não foi criada de uma costela de Adão...
Exemplo disso é a extensa lista de livros cuja leitura é proibida aos cristãos: o célebre «Index librorum prohibitorum». Num ápice, a inclusão de Dan Brown no «Index», coloca o seu livro ao lado de outras obras primas da literatura mundial, como «Os Miseráveis» de Vítor Hugo. E compara o seu autor a outros escritores que foram declarados heréticos e totalmente “banidos da cristandade” (sob pena da imediata excomunhão de quem lesse os seus livros), de que se destacam: Descartes, Bacon, Hobbes, Voltaire, Diderot, Montesquieu, Lock, Pascal, Rousseau, Lamartine, Stuart Mill, Hume, Zola, Maeterlinck, Comte, Anatole France, Kant, Jean-Paul Sartre, André Gide, Alberto Moravia, e por aí fora...
Mais uma vez a Igreja Católica dá um tiro no seu próprio pé...
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