Paulo Barreto - Juiz de Direito
"E o sexo… também pressiona o juiz?
O juiz não pode ser natural de terra nenhuma, sob pena de ser pressionado. Não pode casar, porque os colegas do cônjuge ou seus superiores hierárquicos o podem influenciar. Não pode ter filhos, porque corre o risco de ser condicionado pelos respectivos professores. Não pode ter família, porque pode dar azo a inúmeras possibilidades de pressão. Não pode ter amigos (muito menos advogados, que até foram colegas de carteira na faculdade de Direito), porque lá se vai a isenção. Não pode viver numa rua, porque é perigosa qualquer relação de vizinhança.
Não pode adoecer, pois pode ficar dependente do médico. Não pode ter animais domésticos, porque aí é o veterinário o potencial perigoso. Não pode ir ao mesmo restaurante, sob pena de amanhã o dono do estabelecimento se sentir no direito de dar uma "palavrinha". Não pode ir duas vezes a um café, porque está a abrir o flanco para pressões. Não pode ser cliente habitual de barbeiro, sapateiro, pronto-a-vestir, alfaiate, cinema, "stand", parque de estacionamento, papelaria, tabacaria, quiosque de jornais, bomba de gasolina, mecânico, torneiro, carpinteiro, marceneiro, vendedor de gás, padeiro, pasteleiro, fotógrafo, etc.
O juiz não pode ser visto com quem quer que seja, por se tratar de um potencial perigoso encontro social. Nada de casamentos, baptizados, crismas, aniversários, festas! Padrinhos, afilhados, compadres são absolutamente proibidos. O Juiz não pode votar, porque não pode ter partido. Não pode ter paixão desportiva, nem associativa, nem cultural. Nada de "hobbies". Se um juiz entrar num urinol público e se cruzar com um político, o melhor é sair de imediato e travar a vontade, quem sabe não se trata de uma inauguração. Sair, só à noite, em ruas desertas, mal iluminadas, não vá ser reconhecido.
E o sexo... também pressiona o juiz?
Os juízes são uns tontos que por aqui andam, influenciáveis, pressionáveis, inconscientes. Coitados! Se não fossem esses anjos protectores que nos guiam e defendem da maldade, do demónio! Que seríamos nós, juízes, sem os vossos conselhos!
Estou eternamente grato aos Drs. Sequeira (Visão) e Prada (DN)."
publicado nas Cartas do Leitor do Diário de Notícias, no dia de Fevereiro de 2005
1 comentário:
O juíz não é nenhum bicho do mato. Não é, nem o pode ser. Um juíz não pode viver isolado nem alheado da sociedade. Senão como poderá ter os requisitos para decidir sobre o que for?
Deixem-se de baboseiras e, sobretudo, deixem as pessoas trabalhar.
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