quarta-feira, maio 22, 2013

Uma Família Moderna




Como sabeis, na passada sexta-feira, o Parlamento aprovou, na generalidade, um projeto de lei do PS para que os homossexuais possam co-adotar os filhos adotivos ou biológicos da pessoa com quem estão casados ou com quem vivem em união de facto. Não se trata ainda da adopção plena, que significa a ruptura de todos os laços da família biológica, mas mesmo assim é um passo de gigante dado em Portugal.

Como todos os aspectos que versam as questões da família e, particularmente, as crianças e a homossexualidade, este tema está longe de ser pacífico. As reacções foram muitas, como era de se esperar. De um lado, as vozes que se manifestaram frontalmente contra. Por exemplo, num comunicado assinado pelo presidente da comissão política dos sociais-democratas madeirenses, Alberto João Jardim declara que «O PSD da Madeira insurge-se contra o resultado da votação sobre a adoção por casais homossexuais ocorrida na Assembleia da República». Marinho Pinto, o bastonário da Ordem dos Advogados criticou o projeto de lei que permite a coadoção pelos casais homossexuais, considerando que se trata de “uma má medida, que desrespeita e maltrata das crianças" (*). Do outro lado da barricada, Mónica Ferro, coordenadora da bancada do PSD para as questões de Negócios Estrangeiros, apoia esta decisão por entender estarem em causa "questões fundamentais como a consideração do superior interesse da criança, que é o seu direito a ter uma família, e porque não pode ser pela orientação sexual de quem pretende adotar que se pode aceitar ou recusar um processo de adoção".

Confesso que já estive mais perto da primeira opinião do que desta segunda. Sempre me fez alguma confusão a possibilidade de entregar a educação de uma criança a um casal homossexual, particularmente homens, aqui por considerar as mulheres mais ajustadas ao desenvolvimento da criança. Porém, não posso deixar também de considerar que, se quiser defender esta posição, vou necessariamente ter de ir buscar noções ultrapassadas e até, de algum modo, extremistas. Mormente, a contranatureza desta situação; a aceitação pública desta criança (na escola, junto dos amigos, etc.); na  maior possibilidade de "contágio" da criança nos gostos e tendências dos pais; como li em qualquer lado, a promoção da redução da natalidade. Enfim, uma série de argumentos que, se começar a explorá-los, irei encontrar uma série de buracos que depois não conseguirei explicar. Curiosamente, tratam-se dos mesmos argumentos e da mesma discussão, aquando da generalização dos divórcios e consequenemente dos filhos de pais separados. Ou quando da mistura de raças.

A defesa da família natural (pai e mãe) parece-me, apesar de tudo, a posição mais lógica para quem é contra esta medida. Porém, esta é uma opção sobretudo enraizada na cultura de um povo e na sua condição religiosa, mais do que no interesse da própria criança. Alias, basta ver a quantidade de processos que correm nos tribunais de Família e Menores do nosso país, quer por incumprimentos, negligência, exposição a situações de violência doméstica e maus tratos, para termos noção que a defesa das crianças não pode passar unicamente por um ideal de família. Os números que constam  relatório anual de avaliação da actividade exercida em 2011 pelas 305 comissões de Protecção de Crianças e Jovens existentes no país confirmam um cenário muito complicado, com cerca de 67.491 menores sinalizados naquele ano e cerca de 2.995 crianças que foram retirados às famílias, e uma realidade que muitos não querem reconhecer. E estes são os números conhecidos. Infelizmente ainda há muitas crianças não sinalizadas sob o jugo de pais negligentes ou ausentes, que não lhe garantem, de forma alguma, um bom futuro.

Pelo que, na minha opinião (que vale o que vale), o superior interesse da criança tem que ser defendido sim, mas com base no direito que esta tem a ter um crescimento harmonioso e sustentado, enquadrada num lar onde existam condições, responsabilidade, segurança e amor, independentemente dos seus pais ou da casa onde a mesma se insere. E porque não é despiciendo, faça notar ainda que este diploma agora aprovado, prevê a adopção por casais homossexuais. Sendo um processo de adopção, trata-se um procedimento com regras e imposições que, quem já passou por isso e conhece da burocracia, muitas vezes não são fáceis de suportar.

É estranho? Poderá ser. Por exemplo, sabiam que o termo “família” é derivado do latim “famulus”, que significa “escravo doméstico”? Este termo foi criado na Roma Antiga para designar um novo grupo social que surgiu na altura entre as tribos latinas, ao serem introduzidas à agricultura e também à escravidão legalizada. Como vimos esta noção já evoluiu bastante desde então.


(*) Nota: apesar do Dr. Marinho Pinto ser o representante máximo da ordem profissional onde me insiro, não admito, nem aceito, que o mesmo se pronuncie sobre um tema desta natureza, seja em que sentido for, sem, no meu caso, eu ter sido consultado. A opinião manifestada pelo Dr. Marinho Pinto é uma opinião pessoal e não pode representar, nem representa, o todo da Ordem dos Advogados ou a sua opinião formal.

domingo, maio 19, 2013

Eu fui condenado a...


Já alguma vez imaginaram que a vossa vida, como a conhecem, pudesse levar-vos a situações extremas, simplesmente por emitirem as vossas opiniões, andarem nas redes sociais ou omitirem comportamentos determinados como essenciais para a vida em determinadas sociedades?

A Amnistia Internacional, a organização não governamental que defende os direitos dos homens, criou uma aplicação chamada "Trial By Timeline" que revela, através de uma análise automática da vossa conta de Facebook, quantas vezes, com quais punições, em que crimes e países você seria acusado, perseguido e/ou condenado pelos mais absurdos motivos. Por exemplo, há locais no mundo em que uma pessoa seria punida simplesmente por ter uma conta em uma rede social...

Evidentemente decidi experimentar na própria pele (versão digital, evidentemente), e ver o que saía dali...


Associando o "Trial By Timeline" ao meu perfil no facebook e após apurada "investigação", descobri que em diversos países eu sofreria severas penalidades, em alguns sítios por exercer “equivocadamente” a minha liberdade de expressão. Noutras regiões o simples facto de não declarar a minha religião publicamente já seria motivo para tortura, prisão ou perseguição.

Assim sendo, vamos às contas: apenas pelo meu perfil no facebook, os meus likes, apoios, etc., eu seria espancado 22 vezes (na India e Paquistão, na primeira por apoiar a Amnistia Internacional, nos segundos por ser cristão). Seria torturado por 17 vezes (na Arábia Saudita, Afeganistão e Síria, por ser cristão, por defender os direitos humanos e por não divulgar abertamente a minha religião; e em Myanmar, simplesmente por ter uma conta no Facebook); seria preso 53 vezes (mais uma vez, Arábia Saudita, Afeganistão e Myanmar, pelas razões anteriores; e no México, por defender os direitos humanos); seria chicoteado uma vez na Arábia Saudita; já teria sido alvo por 26 vezes de atentados levados a cabo por extremistas na Rússia, e mais uma vez por defender direitos humanos; e teria sido perseguido 44 vezes, novamente pela cena dos direitos humanos e por ser cristão, na Serra Leoa e em Laos. E decididamente, Arábia Saudita não é uma boa cena para mim...


Portanto, e resumindo, a minha conta no Facebook levaria a que fosse perseguido, preso, chicoteado, espancado, torturado e atentado contra a minha vida! E mais que uma vez!! Apesar das 88 condenações por 4 crimes em 46 países, ainda não sou assim tão mau: escapei de ser enforcado, morto por injecção letal, apedrajado até à morte, morto a tiro (se bem que os atentados ajudariam nesta estatistica) e não foi decapitado em país algum! Vá lá!

Leva-nos a pensar que raio de mundo é este, onde a vida de uma pessoa, e particularmente a duração deste, depende do lugar onde a 'cegonha' nos larga...

O Estádio dos Barreiros e a falta de pessoas sérias!




Eu sempre disse que o homem veio à Terra para complicar as coisas. E quando as quer complicar, complica mesmo! Bem, hoje o Diário de Notícias da Madeira publica uma notícias cujo título diz tudo: "Governo Regional deixa cair contrato dos Barreiros". Então o que é esta notícia?

De acordo com o DN, "o governo regional comprometeu-se a anular o contrato-programa aprovado em Conselho de Governo, resolução n.º 1338/2010, em 4 de Novembro de 2010. Este foi o contrato-programa, assinado, com o visto do Tribunal de Contas e com execução orçamental, que acabou por não ter efeito, pese embora o arranque substancial das obras a cargo do consórcio vencedor Tecnovia/Zagope, entretanto paradas por falta de financiamento bancário".

Esta é uma conclusão que se retira do Relatório do Tribunal de Contas da auditoria aos encargos assumidos e não pagos pelos Serviços e Fundos Autónomos da Secção Regional da Madeira do Tribunal de Contas, e que foi publicado na íntegra no JORAM, número 90, IIª Série, de 10 de Maio de 2013.

De facto, no referido relatório é possível ler que “na sequência do apuramento de défice e da dívida da região para 2011, todos os CPDD [nota: são os contratos-programa de desenvolvimento desportivo] destinados à construção de infra-estruturas desportivas, tinham sido considerados no reporte, agravando (...) o défice. E que, nesse âmbito, a Região se comprometeu com o INE, o Banco de Portugal e a DGO [a Direcção Geral do Orçamento], a anular os CPDD, sem execução financeira, celebrados com o Clube Naval do Seixal (€ 271.815,00), Clube Desportivo Nacional (€ 1.494.387, 63) e o Club Sport Marítimo (€ 39.552.300,00)". Estas são as palavras do excelentíssimo Sr. Secretário Regional do Plano e Finanças, Dr. Ventura Garcês, quando ouvido em contraditório pelo Tribunal de Contas.

Por outras palavras, o contrato-programa assinado em 2010 para a reconstrução do Estádio dos Barreiros, aprovado pela resolução do Conselho de Governo n.º 1299/2010 e alterada pela resolução do CG n.º 1338/2010, ficaria anulado.

O que necessariamente levanta a questão: mas andamos todos a brincar? Eu gosto de pensar que estamos a falar de pessoas sérias. Porém, o que se tem assistido com esta novela do Estádio dos Barreiros já roça o paranormal! 

Ora vejamos: primeiro começou com toda a história do local para o novo estádio do Marítimo. Foi o local da Prebel, no RG2, na Praia Formosa, embora tudo tivesse sido feito para que nenhuma destas situações fosse viável, inclusive com a aquisição de terrenos por terceiros "pouco interessados". Por fim veio a escolha da remodelação do Estádio dos Barreiros, passando primeiro pela sua cedência definitiva ao clube. Só nesta história toda perdermos uns bons 5 a 6 anos.

Por fim veio, em 2010, as Resoluções definitivas: a Resolução n.º 551/2009, publicada no JORAM, Iª Série, n.º 41, Suplemento, de 7 de Maio, que cedeu o Estádio dos Barreiros ao Marítimo. As resoluções já atrás citadas, a 1299/2010 e 1338/2010, que aprovaram o contrato-programa. E, mais recentemente, a Resolução do Governo Regional n.º 144/2013, publicada no JORAM, Iª Série, n.º 25, 3º Suplemento, de 27 de Fevereiro, que autoriza o clube a utilizar o Estádio dos Barreiros como garantia junto banca, nos termos tidos convenientes para prossecução e conclusão da obra em curso no Estádio, e em condições previamente aprovadas pela Secretaria Regional do Plano e Finanças.

Depois disto tudo, ficamos a saber, "por portas travessas" que, aparentemente, o Governo Regional, muito provavelmente no âmbito do PAEF e da questão da dívida oculta (ou não reportada como gostam de chamar por cá), há um compromisso para anular o contrato programa que apoia a reconstrução do Estádio dos Barreiros! 

Isto sem considerar que a obra já se iniciou. Sem considerar que, precisamente por este contrato programa, o Governo Regional já deve a quantia de € 2.569.800 (dois milhões quinhentos e sessenta e nove mil e oitocentos euros), referentes aos anos de execução de 2010, 2011 e 2012 - e tratando-se precisamente da quantia acordada com os empreiteiros para a conclusão da fase 1 da obra. Sem considerar ainda os gastos que o consórcio já teve com a execução da obra, orçados em cerca de 14 milhões de euros. E, nem entro pela questão paisagística, pela questão desportiva, etc.

Importa saber afinal se o Governo Regional está ou não de boa-fé!! Recordo as palavras bem recentes do Dr. Alberto João Jardim, na inauguração da loja/museu do Marítimo nos Barreiros, anunciando uma solução para concluir as obras do Estádio dos Barreiros! Depois a própria aprovação da Resolução 144/2013 que, embora não desse a solução definitiva, permitia uma folga maior na negociação junto da banca. Tudo isto não joga agora com a intenção da anular o próprio contrato programa! Isto é uma palavra junto do Marítimo, outra junto das instituições externas!

E enquanto vamos brincando com estas coisas, ficam as obras paradas no estado que se vê, uma dívida por pagar, e deixa o maior clube da Região e um dos maiores de Portugal, com uma casa mal arrumada e um grande imbróglio nas mãos! Um imbróglio que o poderia deixar de ser, caso a Secretaria do Plano e Finanças começasse por desbloquear a verba retida - os tais 2,5 milhões de euros - que já permitiriam que as obras na bancada nova terminassem e que a mesma ficasse em condições de receber público! Não há dinheiro dizem. Mas há 525 mil euros de comparticipação para o "Madeira Island Open Golf" de 2013! Mas há 300 mil euros para a edição deste ano do Rali Vinho Madeira, que tem vindo a morrer ano após ano! E há cerca de 1 milhão de euros anuais para, por exemplo, o Clube Futebol União, que não tem estádio, não tem formação, e infelizmente hoje nada dá à Região! Troquem isto tudo pela rentabilidade que dará um Estádio dos Barreiros pronto à Madeira, para ver todo o absurdo da presente situação...

Numa nota à parte:

Mas não pensem outros que se ficam a rir com tudo isto, sentados nas suas cadeirinhas na serra. Ainda me recordo que no programa da RTP Madeira "Prolongamento", no pós derbi insular, houve um adepto do Nacional que disse que o Estádio da Madeira estava pronto e o nosso não porque foram mais "inteligentes". E sem esquecer o contraste entre o "estaleiro", "a coisa feia", em comparação com a "beleza", o "fantástico" complexo desportivo da Choupana. E falam com tal convicção e orgulho como se se tratasse de uma obra que o próprio clube tivesse pago! Ou melhor, que já estivesse pago! Recordo que, através da Resolução n.º 1800/2005, o Governo Regional autorizou uma comparticipação financeira ao Clube Desportivo Nacional no valor de € 22.721.416,45 para "o valor total da empreitada de concepção/construção do complexo desportivo do Clube Desportivo Nacional - 2ª fase". Pois meus amigos, de acordo com o Relatório do Tribunal de Contas (página 53) está por pagar até 2025 a quantia de € 25.607.403,10 (inclui juros). Não sendo pago pelo GR, adivinhem a quem vão bater à porta...

E tudo isto porque já não temos um Executivo que seja uma pessoa de bem...


quinta-feira, maio 16, 2013

Profissão de Risco: Limpador de Janelas




Com 828 metros de altura, o Burj Khalifa é o edifício mais alto do mundo. Com 124 andares, este "superhotel", que cresce do imenso areal da principal cidade dos Emirados Árabes Unidos, é uma das principais atrações do Dubai. É uma maravilha da engenharia humana e um regalo para a vista. E custou um balúrdio é claro.

Mas nem tudo são rosas. O Burj Khalifa tem 24 mil janelas que precisam constantemente de ser... limpas! O clima desértico desta cidade na costa do Golfo Pérsico, com a temperatura muitas vezes a ultrapassar largamente os 42 gruas celsius, e o vento constantamente a atirar areia às janelas, em nada ajuda. 

E como é que se limpam estas janelas? Assim...



A limpeza de todas as janelas do Burj Khalifa requere mais de três meses de árduo trabalho. Ah... e nada de vertigens!


"A certeza dos resultados!" in DN-Madeira

(clicar para aumentar)

quarta-feira, maio 15, 2013

Há 36 anos o Marítimo fez história!




Faz hoje precisamente 36 anos anos que o Marítimo subiu pela primeira vez à I divisão do futebol português. Aconteceu a 15 de Maio de 1977. Pela primeira vez uma equipa fora do espaço continental lograva ascender ao mais alto patamar do futebol em Portugal. 

Trata-se de um marco histórico, escrito a letras de ouro pelo Club Sport Marítimo. Depois de muita luta, muito batalhar, muitas portas fechadas, a custear tudo do próprio bolso, eis que o nosso Clube Sport Marítimo chega ao mais alto patamar do futebol português. Era o culminar de uma longa caminhada que teve que ultrapassar obstáculos colocados cá e lá para ter sucesso. Com José Miguel Mendonça na chefia da direção e Pedro Gomes na orientação do plantel, uma equipa atingia aquilo que nunca uma outra havia alcançado.  

Nesse dia 15 de Maio de 1977, que o Marítimo recebia, no Estádio dos Barreiros, o Olhanense. ‘Cheio que nem um ovo’, diziam os comentadores, a propósito da enchente nos Barreiros nesse dia. Pendurados nos postes de iluminação, sobre os muros que rodeiam o Estádio, empoleirados nos galhos das árvores que ainda existiam no sector do ‘Peão’ e no espaço que com ele confina, na pista, sobre as cabinas e os bares, até sobre a pala que protege a bancada central, qualquer lugar servia para ver o grande jogo. E muitos tiveram de ficar de fora, nas ruas que ladeiam o Estádio, nas rochas sobranceiras à baliza das cabinas.

Ao meio dia os portões abriram-se, e poucos minutos depois, mais de metade da lotação ‘oficial’ do Estádio estava ocupada. Dos altifalantes do Estádio ouve-se a marcha do Marítimo. Os presentes cantam e aos cantos juntam preces e promessas a cumprir no caso de vitória. Uma ‘cruz’ de alecrim dá várias voltas ao Estádio, para afastar o ‘mau olhado’. Cartazes com as mais variadas mensagens são exibidos um pouco por todo o lado. O Estádio está completamente cheio. A solta de pombos e o lançamento de panfletos sobre a bancada central torna o ambiente ‘vulcânico’, tal qual acontecera num primeiro momento, com a leitura do comunicado do Governo Regional da Madeira a anunciar que, em caso de vitória, ‘amanhã é feriado’.


Quando o Marítimo entra em campo, dos foguetes que estalam à volta do Estádio só se detectam os clarões. O rebentamento é abafado por mais de vinte mil vozes que gritam incessantemente ‘Marítimo, Marítimo, Marítimo’. Não houve tempo para recuperar do esforço vocal que acompanhou a entrada da equipa em campo. Aos sete minutos de jogo, Nelson cobra um livre colocando a bola nos pés de Eduardinho, que vai à linha de fundo cruzar para a cabeça vitoriosa de Norberto. Dá-se a primeira invasão de campo. Pacífica, como era, de resto, toda a festa. Quando o público começava a ‘acalmar’, surge o segundo golo. Arnaldo desmarca Noberto entre os defesas algarvios e este ‘bisa’, rematando fora do alcance de João Luís, o guarda-redes adversário. Iam decorridos 13 minutos de jogo. Nova invasão. Não há maneira disto acalmar. Aos 20 minutos é a vez de Calisto ir à linha de fundo realizar o cruzamento que coloca a bola na cabeça de Nelson. Assim se fez o 3-0. E com ele, pela terceira vez entram em campo centenas de adeptos verde-rubros, a festejar a vitória que já não podia falhar.

O público já rebentou de alegria por três vezes, as suficientes para que se ouçam grupos de sócios gritar ‘Marítimo é campeão’, ‘Marítimo é campeão’, ‘Marítimo é campeão’. Os jogadores do Marítimo, bem, fazem a gestão da vantagem; os adversários esboçam alguma reacção, mas não chegam a perturbar seriamente a baliza verde-rubra. E como o desfecho do jogo dificilmente deixará de ser favorável ao Marítimo, as exibições de folclore no intervalo são apenas um leve complemento à festa que todos e cada um dos presentes faz no seu lugar. 

Na segunda parte chega o quarto golo do Marítimo, agora Noémio a iniciar a jogada que vai culminar em cruzamento para o remate certeiro de Arnaldo. Claro que houve nova invasão de campo. Faltavam agora sete minutos para o apito final do árbitro. Quando esse apito acontece, a confirmação plena da vitória transforma-se em nova invasão. Os milhares de adeptos que pisam o relvado querem o impossível: a braçadeira do capitão, a camisola dos jogadores, os calções, as meias, as botas, os atacadores destas, se mais não houvesse. E não havia meio de a todos satisfazer, tão poucos eram os que a tantos podiam oferecer alguma coisa que imortalizasse a vitória mais saborosa de todas quantas o Marítimo ofereceu a estas gerações de madeirenses que, do Estádio aos confins do Mundo, se orgulham da terra-mãe e do seu clube campeão.


Na cidade do Funchal vivem-se momentos de indescritível alegria. Da zona velha às zonas altas, do centro à zona onde está instalada a maioria dos hotéis, das tascas populares aos bares mais requintados, dos espaços de convívio público ao mais recatado dos lares, ninguém resiste à emoção de sentir realizado o maior dos sonhos do futebol madeirense nas últimas décadas. Já se sabe que o dia após a vitória é feriado, decretado pelo presidente do Governo Regional da Madeira e sócio do clube, ainda o Eng. Jaime de Ornelas Camacho. As mais diversas formas de comemoração da vitória são o escape para tanta alegria; entre os maritimistas mais fortemente vinculados ao clube, o sentido de missão cumprida no presente é par do orgulho de um passado glorioso, vezes sem fim contado aos vindouros e outras tantas recordado com carinho.

Da generalidade dos clubes continentais são enviadas diversas mensagens de felicitações ao Marítimo. No momento do triunfo, até alguns que tudo fizeram para que o campeão da Madeira nunca participasse em provas nacionais prestam homenagem. Destaque particular merecem, naturalmente, as mensagens enviadas pelo Benfica, Sporting, Porto, Boavista, Guimarães, Belenenses, Braga, Vitória de Setúbal, entre outros, que cumprimentam o futuro parceiro.

"É com imensa alegria e satisfação que nos associamos à grande festa do glorioso Marítimo, pois vencendo tudo e todos, galardoouse ao escalão máximo do futebol nacional, por mérito próprio, num empreendimento arrojado mercê de condicionalismos impostos e de flagrante injustiça para o futebol da nossa terra. A Direcção do Sporting Clube da Madeira não podendo ficar indiferente a tal demonstração de valor, vem manifestar a V. Exas. O seu apreço e regozijar-se com semelhante facto, pois não só está de parabéns o grande Marítimo como o desporto da nossa Ilha. Felicitando V. Exas., e toda a massa associativa, desejamos os maiores êxitos ao Club Sport Marítimo e apresentamos os melhores cumprimentos". (Sporting da Madeira, do dia 18 de Maio)

Igual interesse têm as dezenas de missivas de sócios, adeptos e simpatizantes do Marítimo espalhados um pouco por toda a parte. Oriundas de todas as grandes cidades continentais e das grandes metrópoles de países estrangeiros onde labutam madeirenses, chovem telegramas e cartas na sede do Marítimo. Da sua leitura fica-se a saber como se realizaram festejos entre pequenos grupos de madeirenses radicados em Lisboa, no Porto, em Coimbra. De Macau chega a carta de um adepto disponível para contribuir para uma presença sólida na I divisão. As agremiações de madeirenses espalhadas por todo o Mundo exultam da Venezuela à África do Sul, dos Estados Unidos da América à Austrália, de Inglaterra às ex-colónias portuguesas, a subida verde-rubra à I divisão foi sentidamente comemorada.

Entretanto o Marítimo termina o campeonato nesse ano como campeão nacional da II divisão, conquistando o seu segundo título nacional de futebol, 51 anos depois de ter sido o Campeão de Portugal da época 1925/26. Os únicos que alguma equipa madeirense alcançara até então. Quebrava-se assim definitivamente o afastamento das ilhas do território nacional.

Seguiram-se novos e mais importantes desafios. O Marítimo teve de enfrentar enormes batalhas, entre as quais o desfazer das condições humilhantes que ainda forçavam o ‘pagamento’ aos adversários para que pudesse ser considerado um clube português de pleno direito. É isto o que significa ser Marítimista. O CS Marítimo não é apenas um clube, daqueles que nasceram apenas para praticar desporto ou para fazer algum ganhar dinheiro. O CS Marítimo representa a própria Região. É uma parte da sua história e faz parte dos seus vencedores. Ignorar isto, é desprezar grande parte da história da nossa ilha e da luta pela nossa autonomia. Poucos são os clubes que se podem orgulhar de um passado que é feito de conquistas, desportivas, mas também políticas e sociais. Passados estes 36 anos, o Clube Sport Marítimo consolidou-se como um dos principais emblemas de Portugal. E pese embora todas as dificuldades redobradas que enfrenta todos nossos dias, com a ajuda de todos nós, os mais novos adeptos verde-rubros, irá, mais uma vez, superar essas dificuldades e a si próprio!

VIVÓ MARÍTIMO! 

Insectos, o prato do futuro?




A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) publicou recentemente um relatório “Insectos Comestíveis – Perspectivas futuras para alimentação e segurança alimentar”, fruto de um trabalho sobre a dieta alimentar que começou em 2003. 

Um grupo de peritos conta ao longo de 200 páginas como mais de 2 mil milhões de pessoas já incluem insectos na dieta, procurando desmistificar ideias como este ser o último reduto das comunidades mais pobres. Defendem que mais de 1900 espécies de insectos têm valor nutritivo, em níveis que superam a proteína animal mais cara. Cem gramas de gafanhoto, exemplificam, chegam a ter o dobro do ferro que bife do lombo.

E, aparentemente, há outras vantagens na introdução destes "iguarias" na dieta alimentar. Produzir insectos para a indústria alimentar tem um impacto mais simpático no ambiente que investir no gado ou pescado tradicional e também sai mais barato. Um quilo de carne de insecto consegue-se com dois de ração, contra os oito necessários por cada lasanha em que se investe um quilo de carne picada. E o reino dos insectos poderá mesmo ser um bom negócio. No México, gafanhotos vermelhos nativos de Oaxaca, no Sul do país, são vendidos a 12 euros o quilo, tão caros como linguado.

Defende a FAO que este estudo deverá ser levado a sério. Em 2050 estima-se que a população humana terá atingido os 9 mil milhões de habitantes. São 9 mil milhões de bocas para alimentar, e por outro lado, poderá não haver vacas ou peixes suficientes para esta gente toda. Pessoalmente, prefiro o meu bifinho!!!

domingo, maio 12, 2013

Festa da Flor, um verdadeiro cartaz promocional da Madeira


(foto: DN-Madeira)

"Os hotéis da Madeira estão com uma das mais altas ocupações dos últimos anos para a Festa da Flor". A notícia é avançada pela RTP, e ouvindo com atenção o que os turistas dizem, vem provar duas coisas: que o consórcio televisão/internet é um veículo poderoso de divulgação de um destino e dos seus eventos; e que esta festa tem um enorme potencial para atrair gente de todos os cantos do mundo. Saibamos aproveitar o que de bom temos.

A situação do Diário de Notícias da Madeira




Quando uma empresa, seja em que área for, é obrigada pelas contingências do mercado a despedir funcionários, nunca o cenário é bonito. Por muito compreensivos que até possam os trabalhadores ser, a verdade é que as relações nunca serão as mesmas. Afinal de contas é o seu posto de trabalho que está em jogo. É a sua capacidade de pagar os seus compromissos, de assegurar o seu futuro e da sua família que está em jogo. É ainda a eterna questão sobre as suas próprias capacidades para o trabalho, aquele velho julgamento do porquê eu e não o outro.

Não sou daqueles que partilham uma visão romântica de uma empresa, como se duma família se tratasse. Uma empresa, acima de tudo, é feita para dar rendimentos a quem a constituiu. Senão mais valia estar quieto e guardar o dinheiro que se tenha. O facto de dar emprego a terceiras pessoas e ajudar, directa ou indirectamente, a economia em que se insere, embora relevante, não deixa de ser uma consequência colateral da aposta individual do sócio. Naturalmente que, o facto de colocar pessoas a trabalhar juntas na grande parte da semana, promove uma maior aproximação social e, lá está, aquele sentimento de partilha das pessoas e, muitas vezes, amizade que indiscutivelmente tornam muito mais agradável o trabalho e o local de trabalho. Porém, na maior parte das vezes, há sempre aquele momento em que as regras do mercado se impõem. Onde os trabalhadores percebem que, acima de tudo, são um activo da empresa e que só "valem" enquanto o seu trabalho render, enquanto a relação custo-receita for favorável aos seus patrões.

Isto é bem de ver numa condição de mercado regular, onde a regeneração das empresas é uma realidade incontornável. Porém, como todos nós sabemos, há mercados e há mercados. E há muito que se sabe que, por exemplo, o mercado da comunicação social em papel é na Madeira muito 'sui generis' e onde as regras da sã concorrência desapareceram. O que se assistiu esta semana na Empresa Diário de Notícias da Madeira, que se viu obrigada a dispensar 35 funcionários, entre os quais jornalistas, extravassa as condições normais e aceitaveis no mercado. 

É verdade que o DN-Madeira, ao longo da sua vida mais recente, cometeu erros de gestão. Possivelmente terá até gastado onde não devia e sem o resultado esperado. Também é verdade que, com a evolução tecnológica e a divulgação da internet, as condições da imprensa escrita são substancialmente diferentes do que eram há 10 ou 20 anos atrás. Hoje em dia é possível produzir e lançar edições de jornais quase sem se sair de casa. Neste sentido, compreende-se que, ano após ano, seja necessário rever a posição da empresa no mercado, e o seu tamanho face ao binómio custo-receita. Mas isto tudo acaba por ser secundário quando sabemos que, num mercado quase bipartido, há uma entidade que não joga pelas mesmas regras. 

Mesmo ignorando questões de "somenos" como a qualidade, visão editorial ou mesmo implementação no mercado, o facto de existir um concorrente com um financiamento garantido (através do orçamento da Região) independentemente dos seus resultados líquidos, bem como ter garantido para si cerca de 98% da publicidade institucional (e é muita), só por estas duas razões compreende-se que esta realidade estrangula qualquer outro concorrente no mercado. Se juntarmos a uma distribuição gratuita do concorrente por toda a Região, compreendemos que, de facto, não existe concorrência e que, como é o caso do Diário de Notícias da Madeira, este irá ser estrangulado até os seus sócios decidirem que não dá mais. E aí fechará.