
O dia de hoje marca a estreia mundial de "The Dark Knight", o segundo filme sobre a chancela de Christopher Nolan, que ressuscitou um herói moribundo, com o excelente "Batman Begins", em 2005. É com muita expectativa que irei ver o filme, sobretudo depois de ouvir maravilhas sobre a história e a interpretação dos actores, com particular destaque para o 'Joker' do falecido Heath Ledger.
Curiosamente, a primeira crítica que li foi absolutamente devastadora ao filme. Foi do nosso conhecido crítico Eurico de Barros que, do alto da sua sapiência, para além de dar 1 estrela em cinco possíveis, lança logo várias pérolas como quando afirma que "quando Tim Burton trouxe Batman para o cinema como ele merecia, fê-lo mantendo-se fiel ao espírito da criação de Bob Kane, mas instilou-lhe a sua marca de poesia lúgubre, sensibilidade "gótica", fantasia visual sombria e sentido de humor com calafrios". Disse ainda que Nolan "insiste ainda mais na simplificação dramática das personagens e na acção hiperviolenta, desmesurada, ensurdecedora e incoerente que se tornou no pão com manteiga dos blockbusters de Hollywood". Sobre Heath Leadger diz que o seu "Joker sociopata terminal parece o palhaço Bozo interpretado por Marlon Brando depois de uma noite de estúrdia brava numa casa de meninas". Para finalizar - a cereja no topo do bolo - Eurico de Barros diz que "que quase que dá vontade de perdoar a Joel Schumacher por ter levado Batman para Las Vegas". (Leia aqui a crítica na íntegra).
A par do "Homem Aranha" e do "Indiana Jones", "Batman" era um dos meus heróis preferidos da BD. Por isso tenho algum conhecimento da personagem negra criada por Bob Kane. Algo que o Sr. Eurico de Barros parece completamente desconhecer. Poderia eu próprio responder por palavras minhas a este 'crítico', mas prefiro transcrever duas óptimas opiniões, retiradas do site Cinema2000.
Uma opinião vale o que vale e não se quer com isto travar nenhuma guerra, coisa que não tem faltado à conta deste filme por esta internet fora. Mas é notório que existe uma certa tendência por cá, para se enaltecer os chamados "autores". E não há mal nisso, quando é justificado e merecido. Mas...
"Quando Tim Burton trouxe Batman para o cinema como ele merecia, fê-lo mantendo-se fiel ao espírito da criação de Bob Kane, mas instilou-lhe a sua marca de poesia lúgubre, sensibilidade "gótica", fantasia visual sombria e sentido de humor com calafrios."
Dizer que Tim Burton se manteve "fiél" ao espírito do personagem revela duas coisas: ou desconhece o personagem ou está demasiado apegado ao universo pessoal do realizador. Porque o Batman de Burton é tudo menos fiel ao material original (não me lembro de Bob Kane alguma vez ter empurrado o personagem para um plano tão secundário ao ponto de o tornar uma sombra). Aliás, não é de todo imperceptível na construção dos personagens, a filtragem feita pela imaginação de Burton dos esquemas da velha série de televisão, transmitida nos anos 60 e que foram a única referência de Burton em relação ao personagem. É essa a "fidelidade ao espirito original do personagem"?
Mesmo o superior "Batman Returns" (quando comparado com o muito controlado "Batman") resvala demasiado num fetichismo sado-masoquista (por pouco imaginava a Catwoman a chicotear as nadegas de latex do Cavaleiro das Trevas). São sem dúvida bons filmes de Burton, mas de Batman, muito pouco. É notório o desequilíbrio entre narrativa e estética (os personagens raramente têm uma dimensão psicológica consistente e são desperdiçados em histórias que mais parecem tiradas exactamente dos anos 60).
"Batman Begins" não só finalmente tornou o morcego num personagem, mas realmente mostrou preocupação com o seu universo e os seus mecanismos. "The Dark Knight" vai ainda mais longe. É Batman enquanto símbolo e aquilo que representa. De certa forma, Harvey Dent e o Joker são as duas faces da moeda que é o Cavaleiro das Trevas. É um filme superior em muitos aspectos, mas maior é o trunfo de ser dos poucos que percebe a dimensão mitológica dos personagens, dos seus arquétipos e tece uma espécie de história moral que é central na sua essência.
E o que dizer do Joker de Ledger ? É o retrato definitivo do personagem. Quando Jack Nicholson pôs maquilhagem branca e quase devorou o filme de 1989, percebeu-se porque o actor tanto insistiu para que o filme fosse seu: é um veículo para a personalidade do actor transparecer no ecrã. Nicholson fez de Nicholson, com uns certos tiques de César Romero (obrigatória referência para se manter "fiél ao espiríto do personagem"). Alguém viu por ali um Joker ? Não. E foi isso que Heath Ledger soube fazer: entregou-se a fundo ao papel, ao ponto de se ter deixado engolir por ele. Não só isso, mas soube-lhe ser fiél, não só ao seu espírito, mas às suas motivações (aliás, creio que nunca o Joker se definiu tão bem como neste filme) e à simbiose com o morcego. E, proeza das proezas, faz seu o filme sem tirar brilhantismo aos restantes, dos quais Aaron Eckhart sobressai como um verdadeiro "underdog". Ele é a alma e coração do filme. E aqui está outro aspecto que o demarca dessa "monumental obra-prima" que é o diptico de Burton: os secundários têm substância, não são meros apontamentos ou notas de rodapé a marcar presença. E a todos lhes é dado tempo e conteúdo.
Não está isento de falhas (talvez demasiado a acontecer ao mesmo tempo torna a encruzilhada narrativa demasiado labirintica) mas é sem dúvida um filme maior. No seu género, creio que será mesmo o melhor (espero para ver o que sai de "Hellboy 2"). Um dos melhores do ano, sem dúvida. - Pedro Almeida
«O Cavaleiro das Trevas» está longe de ser o típico filme de super-heróis. Christopher Nolan realizou e escreveu, juntamente com o irmão, Jonathan, um poderoso e complexo argumento. Após «Batman — O Início», de 2005, as arestas foram polidas e o novo filme segue talvez os melhores anos de Batman nos comics: os anos 80 e a fase escrita por Frank Miller, onde a moralidade das escolhas alia-se ao lado criminal noir, substituindo a faceta mais lírica do super-herói. Em 2005, eram reveladas as origens de Bruce Wayne e o alter-ego Batman (Christian Bale), agora é a vez de se conhecerem as motivações deste personagem e também a suprema apresentação do seu arqui-inimigo, o Joker (Heath Ledger). Uma relação explorada de uma forma tão letal quanto poética.
É nesta perspectiva que Nolan insere os heróis da banda desenhada num grandioso épico moral com uma génese bem próxima da realidade. Os desígnios de Joker são desconcertantes e actuais, com imensas semelhanças ao espírito do terrorista mais procurado do mundo. As ameaças efectuadas à cidade de Gotham são apontamentos para os locais que foram feitos reféns do terror, chegando mesmo esta alegoria a explorar a violação das liberdades individuais como um meio para alcançar um bem maior. A luta contra a anarquia imposta por Joker, tal qual a realidade, não tem vencedores, apenas uma vitória pírrica. Esta produção é de longe a mais negra dos filmes de personagens com matriz inspirada nos comics, fiel ao lado policial das aventuras de Batman, com o enredo e a filmagem sempre a deixar pistas para uma larga conspiração, numa narrativa com mais fios (narrativos) do que um tapete de Arraiolos.
«O Cavaleiro das Trevas» tem três momentos distintos. Após o fantástico prólogo, com uma apresentação em grande estilo de Joker, surge um triunvirato com a Justiça, a polícia e o vigilante, que é como quem diz, Harvey “Duas Caras” Dent (Aaron Eckhart), o comissário Gordon (Gary Oldman) e Batman. Juntos formam a frente de combate ao crime organizado enraizado na cidade. Tudo muda com o aparecimento do agente do caos, conhecido como Joker. O seu diabólico plano é posto em prática e Heath Ledger domina este trecho. A apoteose é, por sinal, bastante singular: as explosões e os grandes efeitos, normalmente reservados para o clímax, são substituídos, e bem, pela batalha pela alma de Gotham.
Christian Bale é conhecido por explorar devidamente o lado negro dos seus personagens e Batman é adequado aos seus dotes. Não é propriamente um herói afável pois trata-se de um papel construído a pensar no enredo e não no público. De facto, em paralelo desenvolvem-se entre outros acontecimentos. A realçar o personagem de Harvey Dent, que cria a sua própria sorte e deseja ser herói antes de morrer vilão. Numa metamorfose aterradora, pela sua brilhante caracterização, com e sem efeitos, o seu trajecto é digno de uma tragédia grega. O seu encontro com Joker é um dos grandes momentos da filme, com o baptismo de um novo vilão fisicamente distorcido e com uma moralidade estilhaçada. Uma bela interpretação de Aaron Eckhart.
Por seu lado, Heath Ledger interpreta Joker de uma forma soberba, criando um personagem visceral, tenebroso, enigmático e indecifrável. Toda a expectativa em torno desta performance não foi em vão, é ver para crer. É desconcertante visionar cada sequência com o Joker, pois é um processo com charme que perturba, mas não satura. Um lápis em cima de uma mesa que “desaparece” não é um truque de magia, mas um atestado de demência de um personagem que ficará para sempre na galeria dos vilões da 7ª Arte. E essa é apenas uma das muitas imagens que definem a sua incontornável presença neste filme: em cada aparição surge um novo Joker, que tem várias histórias para as suas cicatrizes faciais, percebendo-se rapidamente que estas se propagam à sua alma. O som e imagem ajudam à personificação da personagem: a própria câmara treme com a sua presença. Percebe-se que o argumento foi construído a pensar nesta carta fora do baralho e é doloroso saber que esta performance marca a despedida de um grande actor.
O realizador Christopher Nolan juntou ao projecto um talentoso grupo de actores que enriquece a obra em desempenhos secundários, justamente provocando oscilações nas relações humanas e motivando um interesse para além do espectáculo visual. Daí que «O Cavaleiro das Trevas» seja um filme de “duas faces”, sempre a carburar no limite, com a acção e o drama em constante cruzamento. Para além de Eckhart, surge Garry Oldman, que interpreta novamente o comissário Gordon e traz igualmente consigo uma ambiguidade moral. Como side-kicks, encontramos Michael Caine (o mordomo Alfred) e Morgan Freeman (Lucius Fox), que acrescentam a voz da consciência de Wayne/Batman e linhas que aliviam a constante tensão da história. A fechar, Maggie Gyllenhaal como Rachael Dawes, interesse amoroso de Wayne e Dent, papel antes interpretado por Katie Holmes.
Com várias sequências a serem filmadas através do processo das câmaras Imax, resultando numa maior resolução, textura e claridade, a acção está mais próxima do espectador. Aqui, no entanto, e apesar da produção gigantesca, a ênfase nos efeitos CGi não é predominante: os stunts humanos dominam e produzem algumas das melhores cenas. A música do filme volta a ser dirigida por dois supercompositores, com Hanz Zimmer a compor os trechos musicais de Joker e Howard Shore os de Harvey Dent/Duas Faces.
«O Cavaleiro das Trevas» é um dos grandes eventos de 2008 feito a pensar no espectáculo do cinema em sala, Marca o crepúsculo de um grande actor numa grandiosa produção que junta o melhor de dois mundos e em que a trama e complexidade vão muito além do simples antagonismo entre Batman e Joker. Por baixo das máscaras e das pinturas, existem almas torturadas. - Jorge Pinto
Cada vez mais tenho a certeza que não temos 'críticos' em Portugal, no sentido profissional da palavra. E como isto quero dizer que não temos pessoas que não façam mais do que dar a sua opinião, sem qualquer preparação prévia, sem pesquisa da história, personagens, etc. Que o Sr. Eurico de Barros não goste de Christopher Nolan, tudo bem. Que até nem goste da personagem de Batman, ainda aceito. Mas há que saber separar aquilo que é a sua opinião pessoal daquilo que lhe pedem para fazer: uma crítica especializada, ponderada e informada. Para mais, quando são pagos para tal. Com algumas honrosas excepções, a maior parte do que se lê ou ouve é lixo.
O que importa é que "The Dark Knight" vai batendo recordes de bilheteira e no IMDB leva a impressionante nota de 9,5 com já mais de cem mil votantes registados. Sim, porque no final do dia, a nota mais importante, é sempre do espectador consumidor.
Se tudo correr bem, hoje vou ver o filme e, como habitualmente, colocarei a minha opinião no Cinema Madeira.